Quinta-feira, 02 de Setembro de 2010

Tenho a impressão que quando “Psico” estreou em 1960, o sangue gelou a uma infinita multidão que se pasmou ao ver aquilo que é até hoje, um marco cinematográfico. Hitchcock criou raízes no cinema, “Psico” atinge tal profundidade que será difícil de arrancar. Invejo quem assistiu à sua estreia, quem sentiu o seu poder inicial, quem pode respirar pela primeira vez este doloroso drama, esta memorável intriga.

 

 

Vísceras e vermelho escorrem do ecrã, mesmo quando este inunda preto e branco. Sombra, luz, som que arrepia, imagens milimetricamente perfeitas, movimentos assombrosos. Um olho rodopia, ou seremos nós que rodopiamos de tal modo atordoados por um dos mais marcantes assassínios que passaram pela tela?

 

 

O cepticismo bem poderá ter transbordado nas mentes dos espectadores. Mas no final, tão intenso como todo o filme, regozijamos, regozijamos porque vimos cinema! Vimos arte! Vimos algo singular em toda a nossa vida! Orgulho-me de ter visto e vivido “Psico”. Morei ao lado de Norman Bates, conduzi com Marion e arrepiei-me com Hitchcock.

 

 

Como se poderá esquecer o clima de cortar a respiração comandado por uma banda sonora tão profunda como a própria história. Cheira a mestria esta comunhão de som e movimento e luz. Inegável será dizer que assenta que nem uma luva, uma fusão tão perfeitamente enquadrada. Um sentimento arrebatador abate o espectador no final, impressiona.

 

 

Os pontos finais e vírgulas irão marcar cada pulsação, as transacções de cena para cena, os personagens que estão intimamente ligados à conjuntura consagrada em “Psico” transformarão uma película numa experiência. Imaginemos nós, inspiremo-nos para tratar arte como esta se trata em tão esbeltos e virtuosos paradigmas. Atenção, “Psico” é um paradigma.

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publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 23:02

Um rosto desfigurado, um corpo dorido pela batalha, e um homem arrastado para o seu fim. Decadente, “ Wrestler”, é um filme sobre um homem, este está no auge, não no auge da sua carreira, mas no auge do fim. O Wrestling assume cada vez mais uma forte presença na cultura norte-americana, milhões de pessoas vibram com o espectáculo, vivem-no como se este da sua vida se tratasse.

 

 

“O Wrestler” começa por nos propôr uma nova visão sobre brutalidade, sobre violência, aquele espectáculo não passa disso mesmo, homens poderosos que vemos nas nossas TV´s ou neste caso, ao vivo, não passam de pessoas. Uma cultura tão materialista que transforma aquele homem, aquele lutador no boneco que ele tem no carro. Os lutadores, que nos bastidores convivem alegremente, verdadeiros artistas que são transformados em produtos. Idolatrados pelo que representam, mas não pelo que são. Esforçam-se para dar o melhor espectáculo e assim aleijam-se. Wrestling não é o céu estrelado que se adivinha. Wrestling é duro e frio, magoa o corpo e a alma.

 

 

Um homem só, numa fase decadente, vive o espectáculo como há vinte anos atrás. No entanto já não é o espectáculo que o suporta a ele, mas é ele que suporta o espectáculo. Vive num atrelado, injecta-se com esteróides, vai a bares de strip e arranja um part-time onde é mal tratado. Este irá subjugar-se à vida tal como esta o deixou. Um homem que não é mau, uma pessoa com quem regularmente nos identificamos, mas uma pessoa que foi vencida, derrotado pelos anos, derrotado pela inquebrável linha temporal, e assim tenta reencontrar-se. Um reencontro tardio, não mais mudará, não mais passará daquilo que sempre foi. Moldado para ser um material que não suportará mais nada. Tentará novamente dar o salto, e Aronofski presenteia-nos com esse salto, o fascínio num plano onde o homem velho salta sobre nós como se novo fosse.

 

 

Acompanhamos este homem, respiramos ao lado dele, um registo quase documental, Aronofsky segue este artista com a sua câmara, e a verosimilhança com que esta história nos é contada marca este filme. O artifício da filmagem faz com que o espectador sinta veemente aquilo que vê, que haja um período de reconhecimento, e assim o realizador consegue uma realização necessária, uma opção não pelo mais belo e poético estilo, mas sim aquele que resulta melhor, aquele que irá desmascarar a realidade, e assim tudo é verdadeiro em Wrestler.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 17:25

Enclausurado numa sociedade rigidamente normativa. Uma história de amor incompreendido, um recheio de lirismo esbelto e saboroso.

 

 

 Na flor da idade, o amor resiste ao que vem tal como se resiste ao amor. Um homem e uma mulher, um homem e outra mulher, e damos por nós a ver a Idade de Inocência, um saudável tratamento cinematográfico. Scorsese corresponde aos luxos visuais com a sua visão necessária de expor o campo.

 

 

 Uma época, uma sociedade, e onde cada apetrecho visível ilustra como fechada esta comunidade era. A riqueza infinita dos senhores de Nova York, os bailes e as intrigas, os pratos variados como as relações, os adereços, as flores, os belos salões, os grandes teatros onde óperas se faziam ouvir, e depois, gente complexa e gente simples. Maravilha a viagem visual e reconfortante a trama a que ela é inerente. Uma narradora relata este subtil e ao mesmo tempo grandioso conto. Segue-se um período belo e invejável, onde o excesso de escrúpulos se traduz na falta de outros, uma sociedade que penalizava pela intriga, pelo prosaico fala-barato, pelo clima irrespirável. Um retrato fidedigno de um tempo que não o nosso, passado, caso não seja fidedigno é verosímil, convincente e nesse caso a conjugação da colorida paisagem que o ecrã emana e da colorida forma de a representar surge como um grande trabalho do Sr. Martin Scorsese. Diálogos cuidados que evidenciam uma população sabedora e ao mesmo tempo decadente.

 

 

 Tal beleza que esta obra sustenta que esquecemos a situação de estar entre a espada e a parede dos seus atónitos fantoches.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 15:52

Perturbadora esta película de Von Trier. Remete-nos para dois cinemas, um dentro de outro. No entanto a beleza do primeiro evoca a beleza do segundo. Planos laborados minuciosamente onde há dois movimentos, o de fundo e o que nos aparece à frente. Uma harmonização falaciosa mas interessante, originalidade na tela, Von Trier pinta assim um conto lúgubre como ele gosta.

 

 

Um norte-americano, vivendo em comunhão com o que o rodeia, insere-se numa intriga pós - 2ª Guerra digna de Hitchcock. Trabalha em Zentropa, o absurdo vai dominando campo e contra campo.

 

 

É evidenciado a quebra com as normas temporais, sugerido pela poderosa voz off de Max von Sydow que conta e dialoga com o personagem, a volubilidade espacial também está destacada nas imagens onde a ambiguidade visual é excepcional.

 

 

Um angustiante passeio ferroviário, uma cativante sensação enjoativa causada por um preto e branco expressionista e clássico que prende de um modo medonho. Peculiaridade na forma ágil com que a história reage às próprias reacções do personagem. Uma elipse que acabará por enjaular o personagem no desespero.

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publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 00:26

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