Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

Nas ruas extremamente luminosas de Nova York, sirenes expiram gritos de revolta. Luzes que brilham e contrastam tão violentamente com a noite obscura de uma cidade que esconde repulsa e miséria que sentimo-nos cansados pela paisagem indulgente.

 

 

E após tal poder visual somos injectados por uma voraz injecção de adrenalina, causada por um movimento frenético de Sr. Scorsese. Finalmente somos presenteados com a insanidade, um homem cujas olheiras tocam o umbigo, uma voz cansativa e arrastada, e entre ruas lúgubres e exacerbadamente pecaminosas, uma ambulância luta pelo seu lugar a alta velocidade. Aprecio claramente este total despego pela felicidade, esta forma estóica e confortável de encarar o lixo com que este saudável mundo nos presenteia. Agradeço que seja Martin Scorsese a apresentar esta benigna tristeza, esta simpática solidão. Quem queria um salvador arquetipicamente musculado e provido de uma inteligência incrível? Certamente que não será o mais atractivo, mas sim, aquele desinteressante homem que salva vidas, umas atrás das outras, frio, porque o Mundo não é mais quente.

 

 

Atingindo os pícaros da loucura, continuamos com as luzes e o excessivo movimento, o excessivo movimento tão reconfortante, tão doce, tão empolgante. Uma nota de autor, uma nota de artista, extremamente necessária para identificar e apreciar uma obra, não há refúgios em honestidades fáceis, mas sim aquele forte esplendor, aquela bizarra e cativante câmara que não se dá por escondida, ela existe, ela é o olho e a mente de Martin Scorsese, que assim atira-nos a sua belíssima marca, a sua confrangedora obra, que inquieta o espectador, que fascina o fã, e me apaixona.

 

 

 

Assim compreende-se o porquê do cinema, finalmente alguém que viva e compreenda o porquê de fazer-se cinema, deixemos de entediar, vamos espantar, vamos deslumbrar para que possam desfrutar de tal bela arte. A estranheza é posta em evidência, não que eu nunca tenho visto uma ambulância, não que eu desconheça a noite, não que eu desconheça a desgraça, mas desta maneira tudo me é novamente apresentado, como não nos conhecêssemos, e assim, surge o cinema, a descoberta do estranho na coisa mais banal de todas.

 

 

 É belo quebrar o enjoativo acordo com a vulgaridade.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 16:04
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