Sábado, 18 de Dezembro de 2010

Desde que o ser humano aprendeu a articular tons sonoros criou uma das mais perigosas armas. A fala, aquele vocábulo que persegue o anterior numa organizada e fatal comemoração da inteligência humana. Neste ávido terreno precursor de intrigas surge o mais puro dos cinismos. A infracção dos códigos íntimos, a intromissão no momento entre dois interlocutores faz o ser humano quebrar aquilo que até então se chamaria privacidade.

 

 

Para quebrar a privacidade encontra-se um solitário homem, um eremita que abandonou o seu árido deserto e se movimenta para uma tempestuosa cidade, rodeado de palavras e intrigas. Procurando fazer o que melhor sabe, procurando seguir escrupulosamente a sóbria honestidade de um trabalhador competente, vê-se confrontado com um desconcertante sentimento de culpa. Envergando uma gabardine que esconde pele e entranhas que assentam desconfortavelmente a Harry Caul. O eficaz vigilante, o homem que ouve o que os outros irão ouvir, o ser que interfere na vocalidade dos restantes. Ele é o homem que escuta.

 

 

Numa dança desconcertante, num movimento cinematográfico intenso, Coppola encarrega-se de fornecer uma intriga sufocante e digna dos mais fortes elogios. Usando o incansável fundo de ventanias e terríveis tempestades, tudo condições climatéricas de uma conversa. A paranóia surge tão bem representada que a aspiramos pelo nariz, os nossos ouvidos dançam abraçados à nossa mente, ao som de um dedilhar fenomenal numas ágeis teclas de piano. O som, esse que sempre andou de mãos dadas com a intriga, que enaltece o silêncio quando desaparece, e que esfaqueia o espectador quando se torna agudo como a imagem.

 

 

 

Desde o inicio desta maravilhosa película quando vemos um homem casual sentado num banco de jardim, sentimo-nos impelidos a persegui-lo. Saberemos nós que ele também nos persegue, persegue-nos com a sua história que nos supera. Cada vez mais intoxicados por uma teia de acontecimentos que não mais cessam. Uma conjuntura tremenda que irá despoletar um final cada vez mais ardente, cada vez mais inebriante. Cada passo que damos, aproxima-nos cada vez mais da ofuscante fogueira, onde tórridas labaredas de som e imagem se aglutinam num furacão inexaurível.

 

 

 

Surpresa atrás de surpresa, fantástica realização, planos que nos aproximam e afastam do personagem, tal como ele se aproxima e afasta de si próprio, quase como sentir o seu sangue, frio ou quente, tal como sentimos o nosso. Aquecemos e arrefecemos de tal modo que este volátil contraste se transforma num excepcional exercício de paranóia, obsessão e culpa vomitada por toda o lado. Culpa do inocente levado a executar o meio, o meio que ele é excepcional a executar.

 

 

 

Lubitsch terá dito: "Deixe a audiência somar dois mais dois. Adorá-lo-ão para sempre." E enquanto acompanhamos este singular protagonista a andar em bicos dos pés sobre a sensação de culpa, acabaremos por deliciosamente somar dois mais dois, saborear com satisfação a inteligência a que nos propomos. E ao fim de termos temido e esperado ansiosamente, sentimo-nos tocados por um calmo toque de génio. Coppola neste filme é esse génio.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 17:58
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