Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

Na minha óptica Stanley Kubrick foi um dos melhores e continua sê-lo. Mesmo após a sua morte, as suas obras além de serem variadas no género, são também marcantes. Eyes Wide Shut, o seu último filme, só o vem corroborar. Uma obra formidável, espectacular, e um thriller com uma formalidade arrebatadora. Um filme repleto de grandes momentos, desde o seu início com a belíssima valsa de Shostakovich, até ao final que termina curiosamente com a mesma valsa. Iremos dançar ao longo do filme com Dr.Bill e a sua atraente mulher nas suas obsessões mais profundas e na sua impotência em concretizar o adultério.

 

 

Ao longo do filme este jovem casal que ascendeu na escada social nova-iorquina é tentado a enganar-se mutuamente, talvez fruto do acaso ou da resistência, acaba por não acontecer. Kubrick estuda assim o ciúme e a falta de concretização pessoal de uma maneira muito fria. A intimidade do casal é exposta a nu, literalmente. Começamos com um belo plano de Nicole Kidman, a mulher do médico, a vestir-se, ao mesmo tempo Shostakovich invade-nos. E depois vem o onírico, o jogo de luzes e de cores de Kubrick é fantástico, na festa somos avassalados pelo poder da imagem ao transformar a realidade em sonho, o poder do surreal, a ligeira neblina causada pelas fortes luzes natalícias, começa o jogo entre o casal. Surgem oportunidades para se tornarem infiéis, mas não as chegam a concretizar, apenas no pensamento.

 

 

Mais tarde num diálogo brilhante entre o casal, Kidman revela de uma forma brilhante e forte os seus desejos profundos ao personagem de Cruise, excepcional este diálogo, imperdível, representado ferozmente, Kidman consegue traduzir na perfeição a ironia que irá causar a insegurança de Dr. Bill. Este diálogo irá estar na base da trama que se segue, o jovem doutor fica perturbado pela revelação, a paranóia invade-o, sente-se incapaz, a insegurança inunda-o e então precisa de reafirmar-se. Insere-se nos meios ambíguos e tristes de Nova York, mas sempre sem sucesso. Até que lhe é dada a oportunidade de ir a uma estranha festa. Necessitado não de satisfação sexual, mas de saber que ainda é capaz de satisfazer, Dr.Bill irá a essa festa carnal. Mas nem tudo corre bem, e numa das cenas mais perturbantes do filme, talvez a sua melhor cena, e das melhores cenas que vi até hoje, com fundo de Nuages Gris de Liszt, Cruise é descoberto, a cena da encenação (?), as máscaras fantasmagóricas e arrepiantes, a maneira como fitam Bill, a luz no centro a iluminar o seu terrível líder, o auge do thriller.

 

 

 A partir daqui começa a ficar um ritmo irrespirável para Bill e mesmo para quem vê o filme. O mistério começa a tomar uma postura cada vez mais fascinante, mais dentro do seu próprio género, somos encaminhados nas suas ambiguidades, ocultados pela sua cortina de ferro, e a lugubridade começa a tirar cor a esta fábula sobre a obsessão sexual. Bill vê-se dentro de um quebra-cabeças, tenta resolvê-lo. Acaba por ser resolvido? De certo modo sim, de certo modo não. Duvido que a resolução seja assim tão fácil, e assim fiquei com uma solução incerta, talvez porque procure algo mais, talvez porque não me acomode tão facilmente, mas é um filme digno de reconhecimento, um filme onde cada pessoa tira as suas próprias conclusões, é livre de conjecturar, um filme que dá para pensar.

 

 

 Não nos constrange de modo nenhum no seu plot, posso dizer que Eyes Wide Shut é um filme que me ficará na memória, a sua elegância, a sua estrutura, a sua frieza, a sua ambiguidade, as suas certezas, o seu onírico, a sua postura pecaminosa, a maneira clássica e formal com que Kubrick filma adequa-se na perfeição, um estilo primoroso e apelativo. Um aplauso para o final: a derradeira palavra que fecha esta encruzilhada, está muito bem escolhida, penso que é primordial no sentido do filme. E depois... a fantasia de Shostakovich e a sua valsa nº2. Acaba assim o esbelto pesadelo de Dr.Bill, terrível, estético e clássico. Um pesadelo que remete o espectador para algo inquietante e ao mesmo tempo, repleto de calma, uma realidade traumatizante.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 22:32
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