Quarta-feira, 01 de Setembro de 2010

Sou apologista de que para se fazer um filme interessante, não é necessário mais nada além de dois personagens a manterem um diálogo que resulte, que seja íntegro e que as personagens conservem uma postura inflexível, mantendo-se vincados nos seus pontos de vista. Não se trata de falar só por falar, a conversa em Before Sunset trata-se de um reconhecimento, duas personagens que viveram uma antiga paixão, reencontram-se agora em Paris, e durante sensivelmente uma hora, irão reviver os momentos passados, aprofundarão o conhecimento que têm um do outro, e o mero espectador tem a deliciosa missão de os compreender e conhecer também.

Jesse, um escritor em ascendência, insatisfeito com o seu casamento, sobrevive nas reminiscências de uma noite perdida, Celine, bela e moderna, mais acomodada à vida, tenta não dar demasiada importância ao reacender da paixão. O diálogo é inteligente, e é íntimo à sobrevivência da beleza do filme, a maneira educada, subtil e elegante como os personagens mantêm uma conversa, os temas abrangentes de que falam, a sua filosofia, as suas crenças, a sua psicologia e as suas paixões.

Não esquecer que se trata de um filme singelo, e na minha opinião verdadeiramente original, a sua essência reside na conversa pura e sem tabus, na honestidade de cada personagem, na sua eloquência. Um filme que me surpreendeu, visto que a falta de artifícios sensacionalistas não tornou o filme minimamente aborrecido, pelo contrário, é mais apelativo visualizar uma obra "minimalista" que recorre a poucas ou a quase nenhumas distracções que desviem a atenção do espectador do seu conteúdo. Um filme não precisa de acção exacerbada, não precisa do espectáculo, basta uma pessoa ter a capacidade suficiente de criar uma realidade possível, não demasiado rebuscada, num ambiente agradável, e com pessoas que sejam coerentes no seu discurso, que encarnem aquilo que dizem, e assim temos uma obra bem sucedida.

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 15:27
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