Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

“Em Bruges” há melancolia no anódino transeunte, no turista enganado.

 

 

 

Sobre um belíssimo toque de piano, uma paisagem cinzenta que transborda misticismo, um homem atravessa o seu período mais crítico de depuração.

 

 

Uma cidade medieval, um abandono constante de alma, uma tentativa de se perceber a ele próprio, Em Bruges há um misto tão forte de alegria e tristeza, há aquela paradoxal conjuntura de humor negro e tristeza sem qualquer humor.

 

 

“Em Bruges” é das mais belas elegias ao acto de rendição de um homem, de um assassino. As lágrimas ferem incessantemente o espírito, e em vez de libertarem, prendem, encerram o espectador na agonia, tornam o movimento sentimental fortíssimo, talvez pelo seu ritmo não tão frenético. Imagens inesquecíveis, líricas, pura poesia que transborda de planos e acordes musicais que emanam magia, de emoções organicamente humanas. Tal como num registo fatalista, existe uma predestinação neste filme, Bruges bem pode ser o fim de todos, como pode ser o começo.

 

 

 

Bruges poderá ser a cidade que fecha quem lá passa. “Em Bruges” é tão cruel o acto de sentirmos os nossos sorrisos fúteis, de haver comédia em situações tão sóbrias de si. O que se passa é que assistimos a uma brincadeira séria inesperada, gritante e irrespirável. Este cocktail vibrante torna-se tão delicioso e saudável. E quando somos totalmente atingidos pelo voraz estalo que este filme nos dá, iremos repelir qualquer felicidade mordaz que nos ocorreu por momentos cómicos tão dignos de referência.

 

 

 

Penso que "Em Bruges" não seja um filme de chorar a rir, mas sim um filme de chorar apenas pela sua sublime existência, por ser uma matéria-prima tão concisa de emocionalidade.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 10:00
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Sábado, 20 de Novembro de 2010

Vivendo de trás para a frente, rejuvenescendo. Nascer velho e morrer novo. Benjamin foi um homem que viu a vida com outros olhos. Optimista em relação a tudo revela ataraxia na sua simplicidade. Uma postura paradigma em como atravessar os anos.

 

 

 Destinado a ver morrer quem mais ama, Benjamin não se importa, segue em frente sem nunca arranjar querelas com ninguém. As pessoas passam por ele, entram na sua vida, marcam-no, e quando pensamos que nos iremos centrar em Benjamin Button, enganamo-nos, Benjamin Button é as pessoas que o envolvem.

 

 

Caso peculiar, visto quem deveria merecer mais atenção era Benjamin, não quem o rodeia. Assim o filme é bem sucedido, porque é dedicado ao ser humano, não tenta desenvolver muito uma história incomum, mas sim aproveitá-la para analisar o ser. Uma epopeia na vida deste homem envolvido por pessoas normais e todas elas revelando algo muito próprio. E assim este homem irá dançar ao longo dos anos com a linha da anormalidade, enganando tudo e todos.

 

 

 

A condescendência em como a obra é-nos contada é inerente ao próprio personagem, o saber aproveitar a montagem, a fotografia e a banda sonora para embelezar o belo, marca esta realização. O clássico imprime esta obra, aproveitando uma estética formal e tornando assim o seu percurso visual muito estável. Trata-se de uma película que avança com calma, não tem pressas, sabe aproveitar cada momento e assim emociona. Não vemos ódio neste ecrã, e isso acabará por surpreender, questionamos como é possível não haver ódio nem revolta, e por isso O Estranho Caso de Benjamin Button emociona tanto.

 

 

 Podemos acreditar naquilo em que vivemos, podemos confiar no que nos rodeia, e ficamos intimamente ligados a uma bela paisagem urbana ou paradisíaca. Sentimos aquilo que até então não tínhamos sentido, respiramos novamente com outra densidade, tomamos mais atenção ao rosto que está defronte de nós, e percebemos que deve-se encarar sempre o rosto defronte de nós, afagá-lo e compreendê-lo e só nos resta então escutar.

 

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 14:54
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Sábado, 06 de Novembro de 2010

O dia surge como se noite fosse. Um cidadão diverte-se a dançar com a sua própria embriaguez e quando amanhece, surge o derradeiro momento de adormecer.

O mundo desperta, e colado à densidade momentânea e desesperada, corre lado a lado com a azáfama citadina, a imparável movimentação rotineira que transborda metaforicamente no meio de uma escadaria. E quando pessoas atrás de pessoas se dissipam no nada, os outros, os trabalhadores da inércia, iniciam também eles a sua actividade. Chega a hora de urinar à porta, escarrar lamentos, arrotar impropérios, e encher um pobre estômago com o álcool matinal.

Numa rua, fechada sobre si mesma, ocupantes encarcerados numa extensa vitalidade de insipientes vivências, respiram tão ofegantemente que asfixiam o vizinho do lado. O sonolento hábito de se levantarem e continuarem acordados ao lado do próximo, de propagar ideias e teorias sobre nada, de se refastelarem com o agradável movimento nulo.

 

 

Regozijando aquele que mais ganha menos fazendo, vão tentando aos poucos e poucos, apanhar no ar réstias de truques. Damos por nós confinados numa escadaria que desce até à taberna e sobe até à casa da velha. Onde vai dar, conseguimo-lo descobrir somente por pedaços de momento que indicam que por baixo de nós há o resto de uma metrópole e por cima uma monumental igreja.

E lá vai passando aquele e aqueloutro enquanto estáticos na rua se mantêm os mesmos, andantes vocábulos de lamentos. Refúgio de cinismo e de valentes hipocrisias até à explosão da mais orgânica honestidade, rostos que caminham para o cadáver, dentes que comem as bochechas que os rodeiam, línguas que ofendem como tão depressa lisonjeiam o amigo.

 

 

 E no meio da acutilante navalhada da vida, essa mesma, a pobreza, os homens lutam por intrigas fáceis, as mulheres choram e todos procuram o mesmo, aquilo que dá ritmo à vida e a sorrisos fáceis, o veículo da felicidade, o tão bem amado e inalcançável dinheiro. No meio está um cego e uma caixa, causadores de berros dilacerantes, de violento sangue, de alegres sorrisos e de espampanantes partilhas. À volta temos dançantes bailarinas, dotados guitarristas, cantoras vendedoras, briosas prostitutas, futuros benfeitores, zelosos guardiões e inexoráveis trabalhadoras. Tudo maravilhosas humanidades numa fábula escondida nas sombras de Lisboa.

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 22:44
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Quinta-feira, 04 de Novembro de 2010

O blog CINEROAD lançou o desafio de escolher cinco filmes que definam a sétima arte. Entre os vários géneros, escolhi biopic, drama, comédia e romance e os filmes que na minha opinião definem cada género, sendo eles respectivamente, “Haverá Sangue”, “Ladrões de Bicicletas”, “Pulp Fiction” e “Morrer em Las Vegas”. Também foi pedido escolher o melhor filme dos últimos três anos, “Em Bruges foi a minha escolha.

Irei justificar agora as minhas escolhas, por muito controversas que possam ser, espero que encontrem um sentido.

 

“Haverá Sangue”, o filme que define biopic:

 

I have a competition in me. I want no one else to succeed. I hate most people.”

 

Palavras de Daniel Plainview, homem frio e duro, homem genialmente retratado na obra-prima de P.T. Anderson.

Biografia é uma descrição da vida de alguém. Esse alguém é Daniel Plainview.

Numa inóspita mina, um homem só, bate pedra com uma picareta. Sozinho, tenta subir, mas cai. Sozinho, com uma perna partida, arrasta-se pelo deserto. Há dois pormenores nesta cena incrível que irão definir a vida deste homem. Plainview nasceu para estar sozinho, Plainview não andará mais sem coxear.

Haverá representação mais fidedigna de algum personagem, mesmo sendo este ficcional? Haverá filme que envolva tão brilhantemente o espectador no ambiente que envolve o personagem? “Haverá Sangue” é um filme “solo”, Plainview é tão extraordinário que é dos personagens mais verdadeiros na história do cinema.

Quando vejo Daniel coberto de petróleo dos pés à cabeça, olho para as minhas mãos e também elas ficaram manchadas pela mesma substância. Jamais houve tratamento tão fiel como há em “Haverá Sangue”. Daniel Plainview é real, é tão real que arrepia o meu corpo de tal maneira, que fico despido de pele.

P.T. Anderson baseou-se vagamente em “Oil!” de Upton Sinclair, que por sua vez se baseou vagamente na vida de Edward L. Doheny. Plaiview será a representação de Donehy? Não o sei dizer, mas sei que Plainview é Plainview, e ele é tão real como o leito em que adormeço todos os

dias. Com Plainview cheirei o petróleo, quantos “biopics” conseguem fazer isto?

 

 

O que torna “Haverá Sangue” diferente dos “biopics”?
O personagem principal é fictício.

 

“Haverá Sangue” é um “biopic”?

Não.

 

“Haverá Sangue” define o género?

Melhor que qualquer outro.

 

“Morrer em Las Vegas”, o filme que define romance:

 

Ele é um alcoólico decadente, ela é uma bela prostituta.

Este é o mais belo conto sobre dois infelizes, esta é a mais bela história de amor.

Ele só queria beber até à morte, ela não encontrava ninguém que a amasse. E depois apaixonam-se.

Não lhe interessa se ela é uma prostituta e a ela não lhe interessa se ele é um alcoólico. Ou interessa-lhes? Quem se ama interessa-se por estas coisas, só que eles simplesmente decidiram ignorar. O que decidiram fazer foi simplesmente amar-se um ao outro tal e qual como são.

Estas duas pessoas juntam-se porque sabem que assim irão cegar a solidão. Ao vermos “Morrer em Las Vegas” saboreamos cada pedaço de sedução em busca de reconforto.

Esta é o filme que define o romance, tem a história de amor perfeita.

Ben é um bêbedo, Sera é uma puta. Ben é das personagens mais carinhosas que merecem ser amadas. Sera é linda, tem um corpo voluptuoso que fascina, também ela merece ser amada mais que ninguém. E eles amam-se, estranhamente, mais que ninguém. Nós queremos que eles nos amem incondicionalmente e queremos também amá-los incondicionalmente

Será absurdo dizer que um filme em que amamos as personagens desta maneira defina o romance?

 

 

“Ladrões de Bicicletas”, filme que define o drama:

 

Penso que esta escolha será a mais óbvia, simplesmente escolhi “Ladrões de Bicicletas” como o filme que define drama porque nunca tinha sentido tal angústia ao ver um filme.

Senti um nó de tal modo apertado na minha garganta que só o desapertei livrando-me de duras lágrimas, isto porque De Sica trata tão vorazmente as entranhas da desgraça em “Ladrões de Bicicletas”.

Foi de tal modo constrangedor e emocionante a experiência que seria-me difícil não considerar “Ladrões de Bicicleta como o marco dos filmes dramáticos.

 

 

“Pulp Fiction”, filme que define a comédia:

 

“Did you notice a sign out in front of my house that said Dead Nigger Storage?”

 

Concordo quando dizem que “Pulp Fiction” não tem um género que o defina. No entanto “Pulp Fiction” pode definir um género.

Seria redutor dizer que “Pulp Fiction” é uma comédia. No entanto há melhor forma de fazer comédia que “Pulp Fiction”?

Citei um dos muitos diálogos deste filme. Na minha opinião todos eles brilhantes, obra tal sublime que categorizá-la só num género seria ridículo.

Não é apenas pelos diálogos, mas também pela sua mímica, pelas suas histórias, pelos seus chocantes twists e pelas cativantes performances. Cada momento é divinal, e é divinal ao ponto de sentirmos uma livre diversão. “Pulp Fiction” é de tal modo aberto que não nos constrange a desfrutar a gargalhada pelos seus momentos geniais.

Não acredito que seja um filme dedicado à comédia, mas é obviamente um arquétipo para qualquer filme cómico. E depois tem um aspecto interessantíssimo, é um filme com estilo, o espectador ao vê-lo sente-se com estilo, sente-se confortável e enaltecido.

 

 

“It´s not all about style, but it´s a lot about style.”

 

“Em Bruges”, melhor filme dos últimos três anos:

 

Esta é a história de um assassino que num estádio de catarse, tem das mais belas conversas com a morte.

 

 Estava na dúvida entre “Sacanas Sem Lei” e “Em Bruges”. Optei pelo segundo.

“Em Bruges” é uma trágica fábula sobre um homem que mata e quer deixar de matar, este homem desespera. Isto foi preponderante na minha escolha, visto adorar a premissa. Adorar este estudo ao desespero. Adorar o clima depressivo estabelecido “Em Bruges”.

“Em Bruges” é uma subtil comédia, um trágico melodrama, um belíssimo toque de piano, um filme extraordinário.

O que admiro mais “Em Bruges” é que após tanta lugubridade surge um ténue feixe de luz, que apesar de tudo persiste em sobreviver.

Senti-me fascinado por este filme simples, que resulta de uma percepção notável da modernidade, ligeiros toques de divertimento causado pelo absurdo inesperado, e sempre sóbrio da drástica verdade. É desta confusão que resulta a grandiosidade de “Em Bruges”.

 

Brevemente irei publicar o comentário sobre “Em Bruges”.

 

 

Espero ter sido suficientemente claro, caso não tenha sido o caso, peço que me coloquem as vossas dúvidas.

 

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 22:00
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Sábado, 16 de Outubro de 2010

Viveremos todos. Independentemente da maneira como vivemos, todos acabaremos por ser iguais. Barry Lyndon marca a evolução de um homem na sociedade, uma fase ascendente de uma "criatura" até se tornar um ser honrado.

 

 

Com Kubrick seremos sempre remetidos a uma viagem que terá como base um estudo profundamente antropológico. O ser humano encontra-se no centro da tela, e Kubrick como qualquer artista reproduz a sua arte. As heranças de Kubrick são assaz artísticas, conjugadas com a sua inteligência e minúcia, o seu cinema vem de toda a arte e não especificamente de uma só arte. Ao iniciar Barry Lyndon com “Sarabande” de Handel, Kubrick ensina o espectador sobre a força do filme. Uma imagem inerente a uma melodia, conseguirá aquilo a que chamo a derradeira emoção cinematográfica, mais precisamente a derradeira emoção artística, aquela que conseguirá transmitir ao receptor, seja qual for a forma de comunicação artística, a emoção até então pouco ou nunca antes sentida. Uma emoção cujo nome não lhe encontro, e não necessariamente indescritível ou mesmo inexplicável.

 

 

 O cinema tornar-se-á música, tornar-se-á pintura, tornar-se-á drama, literatura, tornar-se-á arte, vida. Em dois andamentos testemunhamos uma história de um homem. Pequenos acidentes, cuidadosamente narrados, irão conduzir Redmond Barry a Barry Lyndon. A austeridade é revelada em cada plano de Kubrick, um plano terá que ser então densamente ruminado e não espontaneamente exercido. A essência paisagística surge intrínseca à belíssima fotografia impressionista, será a luz que definirá a cor das formas, a sua linearidade natural será exposta da maneira mais fascinante, relembrando assim quadros de Degas ou Monet.

 

 

 Claramente extraordinária esta percepção de Kubrick quanto à filmagem, criando momentos que deixam o espectador céptico pelo esplendor que o invade. Barry Lyndon transmite assim a harmoniosa conjugação, prova que o cinema é uma arte, que usada não de um modo desmesurado, mas sim correcto, poderá elevar o sentimento humano, poderá guiar ao esplendor.

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 13:10
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Domingo, 10 de Outubro de 2010

É indubitável que a saga Star Wars é um marco cinematográfico. Agora o porquê desta afirmação? Por vezes surgem filmes que têm uma capacidade extraordinária de nos fazer sonhar, de nos conseguir transpor para outros mundos. Há filmes que nos conseguem encher de fantasia, que são meramente utópicos, mas a utopia com que somos assaltados é coerente, é mágica, faz-nos querer pertencer a esse novo ambiente.

 

 

Por algum motivo Star Wars se torna num dos épicos mais badalados da história do cinema, é a sua imponência, é a sua originalidade, são os seus métodos inovadores, e como nos sentimos infantis perante tal acontecimento. É nisto que Star Wars é bem sucedido, na maneira como cria personagens carismáticas, épicas, como avança com uma postura preponderante na nossa imaginação. George Lucas criou uma saga épica, uma epopeia inesquecível e o filme que eu visualizei (e não foi a primeira vez que o vi, mas sim a primeira vez que me disponibilizei a escrever sobre ele) trata-se de um dos episódios mais mediáticos, talvez seja aquele que nos deixa mais na expectativa.

 

 

 O seu final é arrebatador, frenético e intenso. O filme que nós desejamos que nunca acabe, que tem os seus grandes momentos, momentos que nos deixaram boquiabertos a primeira vez que os testemunhámos, o filme que mais nos surpreende. É interessante descobrir o mestre Yoda e todo o labirinto que este filme representa, aquilo que nos propõe a conhecer de novo, a desdobrar a teia. É um filme com cenas únicas, grandiosas, emotivas, excepcionais.

 

 

 E tal como a restante saga teremos que distinguir Star Wars de um filme sensacionalista. Claro que são filmes que sobrevivem devido ao seu sensacionalismo, como são sublimes, mas no entanto não se pode aglutinar esse género a este épico. O que se passa é que Star Wars vive de um sensacionalismo mais requintado, mais conservado, mais harmonioso. São filmes que não se baseiam somente no espectáculo, têm uma base sólida para se assentarem.

 

 

A acção e os efeitos especiais, apesar de serem primorosos não bastam para fazerem deste filme uma obra-prima da ficção científica. Star Wars é muito mais, é um momento inesquecível. São filmes que nos deixam agarrados onde nós estamos, que nos fazem desejar por mais. São obras muito bem elaboradas e Episode V não é diferente, apesar de parecer talvez o filme que eu menos tenha amado, não se traduz que o considere digno de menos excelência.

 

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 19:05
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Sábado, 09 de Outubro de 2010

Quando eu vejo "Casino" sei perfeitamente quem o realizou. Aquele toque excêntrico, ousado e alucinante só pode ser de uma pessoa. Quando vejo aquele equilíbrio tão orgânico entre travellings longos e cortes rápidos compreendo que por trás das câmaras há um senhor chamado Martin Scorsese. Ao sermos encharcados com vitalidade cinematográfica, com uma câmara volátil que persegue sem piedade o fio do novelo, esse novelo que, tão poderosamente, poder-se-á chamar história. Scorsese desenrola o novelo como um ancião conta uma história. Cada bocadinho de fio é desenrolado da maneira mais deliciosa até serem só linhas espalhadas anonimamente e ao acaso para chegar ao fim, ao pólo oposto do novelo, que se encontra bem escondido num núcleo que é quase onde tudo começa. Um filme de Scorsese é como uma montanha russa que até então desconhecemos. Esperamos por todo o tipo de emoções empolgantes, de constantes doses de speed completamente extraordinárias que nos são despejadas pelo nariz adentro, aquele looping que ninguém conta, aquele momento calmo seguido de uma virtuosa erupção de adrenalina.

 

 

Com crime voltamos a relembrar Goodfellas, aqueles senhores que relatam, na primeira pessoa, todas as infelicidades que viveram. Sim, relatam-nas tão doce e animadamente que quase se esquecem como tudo termina. Mas nós sabemos como termina! Oh Sim! Nós sabemo-lo tão bem quanto eles, e no entanto amarramo-nos à cadeira como aqueles homens, aqueles pequenos e grandes sacanas se agarram à vocalidade pastora de infortúnios.

 

 

Seguindo com perplexidade cada plano mais estranho que o anterior, cada movimento repentino, cada balada que toca de fundo. Aí está uma percepção interessante, quem se tem que fazer à vida não é o campo, mas o contra campo para desenvolver o campo. Quando o campo não está suficientemente abastecido de empolgantes momentos, mete-se a câmara a mexer, e assim, meus caros, andamos na montanha russa. Claro que não pode ser tudo a andar às voltas como naquela fabulosa montanha, há que descansar e acalmar e apreciar o que nos rodeia, principalmente aquilo que está perante nós quando estamos bem no alto. E depois pegando na atracção, ele metaforiza-a, ele coordena, ele repensa, e constrói uma conjuntura que pasma. Isto é inteligência a filmar, isto é a busca do movimento, essa coisa que se chama movimento, esse pequeno trabalho tão reivindicativo da arte cinematográfica. E por trás de toda a cénica um senhor coordena-a, respira-a, e lisonjeia o espectador. Talvez seja com o movimento que temos de aprender, porque mesmo estar parado é um movimento, tal como o escuro é um movimento, tal como o silêncio, e há que respeitar esta cumplicidade entre cada aspecto cinematográfico, há que saborear o que está para vir e o que está a acontecer. Há que aprender com quem ensina inconscientemente, porque Scorsese não cai em futilidades, aproveita cada momento.

 

 

Casino está esculpido até ao mais ínfimo pormenor, laborado até à exaustão. Será que há problema pensar em esculpir tanto pormenor? Não me parece. O resultado será claramente brilhante. Casino como muitos filmes de mestres, de senhores que percebem de uma coisa que se chama Cinema, despe o seu desinteressante e andrajoso fato, e depois cobre-se com um manto caloroso digno do mais sublime rei.

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publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 15:02
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Domingo, 03 de Outubro de 2010

Casablanca, cidade marroquina filmada num grande estúdio de Hollywood. Vivia-se então os tempos áureos de Hollywood, e apesar de se fazerem tramas demasiado dramatizadas, drama acrescido que provoca previsibilidade fácil, mas que no entanto não atenua na totalidade a grandeza de Casablanca. O que antigamente seriam filmes a lutarem pela grandeza de trama, pela inteligência na intriga, pela explosão (um pouco desnecessária) de sentimentos, transformou-se hoje, em remakes atrás de remakes, em sensacionalismo sem sabor e na maioria das vezes imaturo.

 

 

 E assim Casablanca surge como possivelmente um dos mais amados filmes feitos na idade de ouro de Hollywood. Um clássico eternizado por um excelentíssimo figurão, chamado Humphrey Bogart. Acusarei Bogart de ter um papel tremendamente preponderante nesta trama. Será provavelmente das melhores prestações de um artista da representação nestes tempos precedentes à actual modernidade. Bogart transmite tal calma, serenidade, eloquência que me faz sentir invejoso. Ciumento por assistir a personagem com manias tão sublimes. Apresentando-se despreocupado com o que o rodeia sempre na perfeição, Bogart consegue um papel frio e cauteloso.

 

 

 Depois teremos sempre aquele exemplar brilhantismo que emanava nos grandes planos das actrizes, neste caso, posso afirmar que em cada grande plano de Ingrid Bergman, ela literalmente luz. Aquela capacidade de fazer luzir a actriz poderá condensar a expressão de estrela. Avantajando o protagonismo acaba por revelar-se uma belíssima e clássica técnica, que caiu (penso eu) em desuso com as maravilhosas cores. No entanto Casablanca não será obviamente estrelas, impossível será olvidar aquele ritmo frenético, aquela trama imprevisível e cativante. Aqueles momentos que marcaram uma arte que hoje é demasiado espectáculo, chamada cinema.

 

 

O que se pode aprender com Casablanca, será claramente a força da estrutura, o poder de ter algo no papel com pés e cabeça, a capacidade monumental que tem a mente humana em criar, em desenvolver, e em transformar aquilo que está na mente em imagem, em situações, em realidade. A magia do cinema será muito provavelmente conseguir transformar o nosso pensamento em algo real, belo e uno. A imagem existe, uma vez existindo a imagem, só falta transportar aquilo que imaginámos para dentro dela, e depois, compreender, como os autores de Casablanca certamente dominavam, a importância do plano em cinema, o plano como o meio de transmitir, o plano que é o resultado e que será a percepção do espectador sobre o que vê, então cada plano funciona com o anterior, evitando futilidades.

 

 

Casablanca foge desde o primeiro momento a um estatuto de efémero e é instantaneamente carimbado com a eternidade. No final, quando Rick diz "I believe this is the begining of a beautifull friendship", eu também acredito que grandiosa amizade despoletou neste solene final, uma amizade entre esta obra e a história do cinema.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 00:18
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Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010

Um ladrão tem sempre por trás outro ladrão. Pode-se criticar um ladrão por o ser? Devemos nós apontar o dedo a um criminoso? Não acabamos todos por ser criminosos?

 

 

Uma sociedade apagada, as pessoas andam às escuras, a palpar a sua própria sobrevivência. A pobreza conduz ao desespero, o desespero conduz à tragédia. Todos queremos viver, e não aguentamos viver na miséria, lutamos para sair dela, a nossa vida não se pode basear apenas em lutar por mais um sopro. Viver não é sobreviver. E quando se sobrevive e não se vive, a necessidade aumenta, e então temos de compreender o porquê, temos que compreender que há forças que nos ultrapassam, forças interiores movidas pelo exterior. Procuramos não nos preocupar, viver sem problemas, procuramos o amor, procuramos a amizade, procuramos acima de tudo a felicidade e o bem-estar.

 

 

Será que a população em Ladri di biciclette é assim? Não me parece. De Sica faz um estudo a uma sociedade que prolifera criminosos. Mas podemos nós chamar-lhes criminosos, a estes pobres ladrões de bicicletas? O homem move-se pela necessidade, seja bom ou mau, aliás, não há bom ou mau, são todos iguais, são todos humanos. O jovem desprezível que rouba o nosso herói, será assim tão desprezível? O interessante é que ele acaba por ser tão herói como todos os outros personagens, incluindo o principal. Simplesmente procura alimentar a sua família, simplesmente procura cuidar de quem ama. Mas acaba por ser constrangido, porque tantos outros também o são, e debatem-se contra esse constrangimento.

 

 

A sociedade de De Sica, a sociedade do neo-realismo italiano é uma sociedade presa no caos dos prédios degradados, nos bairros operários, na sopa dos pobres, e no seu sofrimento. É engraçado como Ladri di bicicletti tem mais de sessenta anos e mantém-se actual. Uma criança de mão dada com o pai, o rosto sujo por cair na lama, chora quando este lhe bate, e quando este para a salvar a humilha. Um pai, chefe de família, alto e magro, um rosto sofrido, um andar ansioso e inquieto, lágrimas que escorrem do rosto de este homem honesto e infeliz.

 

 

 Comove ver uma pessoa que vê a luz da esperança, e do nada apagam-na, comove ver esta pessoa por sabermos que é uma sociedade. Comove saber que esta sociedade é injustiçada, paupérrima, infeliz e mísera. Ele é estrangulado pela multidão, mas também ele estrangula e cada pessoa que faz parte dessa multidão é estrangulada e estrangula o que vai ao seu lado. Cada um por si, porque ninguém ajuda.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 09:03
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Domingo, 26 de Setembro de 2010

Um jovem dançarino que aprendeu a dançar.

 

 

Bairros que enclausuram os seus habitantes, e assim limitam as suas vivências e mentalidades. Billy Elliot não retrata a perseguição de um sonho, mas uma sociedade necessitada de um devir transformativo da sua regularidade. Duas lutas, um jovem que luta para alcançar aquilo que nem ele próprio conhece, e homens que lutam contra o poder.

 

 

Quando amamos algo precisamos de o conhecer? Não será essa paixão intrínseca à nossa mecânica? Um rapaz cuja energia infinita se liberta com a dança, uma comunidade que o constrange postulando as normas da convencionalidade. Trata-se de um retrato fiel da firmeza do fado? Ou será Billy Elliot tudo menos fatalista e completamente humanista?

 

 

 Surge a necessidade num ser quotidiano, uma necessidade de libertação, uma necessidade incompreendida por muitos e a beleza no movimento corporal irá prevalecer sobre as leis sociais vigentes. Ao tratar-se de uma história cuja emocionalidade é elevada, a mudança surge quando mais necessário, aumentando por completo os níveis emocionais do espectador. Surge assim um filme sobre beleza humana, não só a beleza do talento, mas a beleza do sentimento, da força e da bondade. Torna-se aprazível assistir a uma obra onde a carga emocional toca o espectador, a solidariedade revela humanidade, descobrindo o altruísmo na frieza. A mudança que se espera não surge, mas sim outra diferente que surpreende.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 11:37
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