Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

O homem sofre para não mais sofrer. Está vento, muito vento, está tudo seco! O clima é agreste, a terra é agreste e o céu está estranho, tudo aparece contorcido de uma dor infinita, de um problema incessante.

 

 

 

Numa pungente paisagem o povo sofre um choque, um choque que percorre a terra de grão a grão, vai fazer tremer o vizinho, vai abalar a vida. Fugimos àquilo que é nosso por que fomos obrigados. Somos proibidos de respirar o nosso ar. Nasce a ira, nasce a fúria, nasce a inveja, e tudo isto são filhos da necessidade, são os malignos filhos da fome!

 

 

 Os rostos sujos proliferam, e o vento sopra, deixa tudo seco, os rostos, os corpos! O povo está tão ressequido, tão cheio de pobreza. Cria-se o vazio e ele mexe-se num vácuo, vai tocar na parede do interminável, tenta quebrar essa barreira, tenta sobreviver. Já não quer respirar melhor, só quer respirar. O povo sujo e forte só quer soprar mais uma vez e saber que aquele que ama sopra também ele mais uma vez. A paisagem arrepia-se porque olha para tão infelizes transeuntes, veraneantes do infortúnio e da maldição.

 

 

 

Mas não acabam, não! Seguem e são perseguidos, aquele odor da pobreza não os quer largar, o azar agarra-se aos sapatos estragados e sujos, e estes cidadãos do mundo são acompanhados pelos seus fantasmas colados à sua sombra. Cada lufada de ar fresco traz mil e um novos desafios, o homem tem que pagar para existir, tem que arranhar carne e osso para o coração bater. Esta acutilante navalhada que alguém chamou vida é intrínseca aos humanos d´ "As Vinhas da Ira".

 

 

 

No entanto, há quem não se esqueça que somos um todo, que o nada faz parte do tudo mas o tudo não faz parte do nada. Só há uma alma, e essa alma é todos, é um hino à lembrança daqueles que não vão deixar de existir, aqueles chatos e irritantes que querem sobreviver! Sim! Esses, o povo! Ainda existem, existiram e existirão. São eles que amam a terra, que a apertam e se apaixonam por ela com tal veemência que não a esquecemos, a terra. É dela que nasce o alimento e é nela que enterramos os mortos, já o tinha dito Céline. Talvez em "As Vinhas da Ira" seja tudo muito cinzento, seja tudo muito genérico, mas talvez seja tudo muito verdade, e por isso, não o esquecemos.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 17:25
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De João a 28 de Dezembro de 2010 às 18:14
Mais um belo texto, numa visão muito eclética do Cinema.
Consegues trazer filmes de diversas correntes e de diversas épocas (muitos deles "esquecidos") ao teu Blog.
Acho que uma coisa têm em comum: muita qualidade.
Penso que este teu Blog merecia também uma maior divulgação, pois eu apenas há pouco tempo o encontrei e julgo que é uma porta aberta para a descoberta de filmes (novos e antigos).
Depois a maneira como escreves é também bastante atarctiva.
Continua!


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