Sábado, 06 de Novembro de 2010

O dia surge como se noite fosse. Um cidadão diverte-se a dançar com a sua própria embriaguez e quando amanhece, surge o derradeiro momento de adormecer.

O mundo desperta, e colado à densidade momentânea e desesperada, corre lado a lado com a azáfama citadina, a imparável movimentação rotineira que transborda metaforicamente no meio de uma escadaria. E quando pessoas atrás de pessoas se dissipam no nada, os outros, os trabalhadores da inércia, iniciam também eles a sua actividade. Chega a hora de urinar à porta, escarrar lamentos, arrotar impropérios, e encher um pobre estômago com o álcool matinal.

Numa rua, fechada sobre si mesma, ocupantes encarcerados numa extensa vitalidade de insipientes vivências, respiram tão ofegantemente que asfixiam o vizinho do lado. O sonolento hábito de se levantarem e continuarem acordados ao lado do próximo, de propagar ideias e teorias sobre nada, de se refastelarem com o agradável movimento nulo.

 

 

Regozijando aquele que mais ganha menos fazendo, vão tentando aos poucos e poucos, apanhar no ar réstias de truques. Damos por nós confinados numa escadaria que desce até à taberna e sobe até à casa da velha. Onde vai dar, conseguimo-lo descobrir somente por pedaços de momento que indicam que por baixo de nós há o resto de uma metrópole e por cima uma monumental igreja.

E lá vai passando aquele e aqueloutro enquanto estáticos na rua se mantêm os mesmos, andantes vocábulos de lamentos. Refúgio de cinismo e de valentes hipocrisias até à explosão da mais orgânica honestidade, rostos que caminham para o cadáver, dentes que comem as bochechas que os rodeiam, línguas que ofendem como tão depressa lisonjeiam o amigo.

 

 

 E no meio da acutilante navalhada da vida, essa mesma, a pobreza, os homens lutam por intrigas fáceis, as mulheres choram e todos procuram o mesmo, aquilo que dá ritmo à vida e a sorrisos fáceis, o veículo da felicidade, o tão bem amado e inalcançável dinheiro. No meio está um cego e uma caixa, causadores de berros dilacerantes, de violento sangue, de alegres sorrisos e de espampanantes partilhas. À volta temos dançantes bailarinas, dotados guitarristas, cantoras vendedoras, briosas prostitutas, futuros benfeitores, zelosos guardiões e inexoráveis trabalhadoras. Tudo maravilhosas humanidades numa fábula escondida nas sombras de Lisboa.

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 22:44
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