Sábado, 09 de Outubro de 2010

Quando eu vejo "Casino" sei perfeitamente quem o realizou. Aquele toque excêntrico, ousado e alucinante só pode ser de uma pessoa. Quando vejo aquele equilíbrio tão orgânico entre travellings longos e cortes rápidos compreendo que por trás das câmaras há um senhor chamado Martin Scorsese. Ao sermos encharcados com vitalidade cinematográfica, com uma câmara volátil que persegue sem piedade o fio do novelo, esse novelo que, tão poderosamente, poder-se-á chamar história. Scorsese desenrola o novelo como um ancião conta uma história. Cada bocadinho de fio é desenrolado da maneira mais deliciosa até serem só linhas espalhadas anonimamente e ao acaso para chegar ao fim, ao pólo oposto do novelo, que se encontra bem escondido num núcleo que é quase onde tudo começa. Um filme de Scorsese é como uma montanha russa que até então desconhecemos. Esperamos por todo o tipo de emoções empolgantes, de constantes doses de speed completamente extraordinárias que nos são despejadas pelo nariz adentro, aquele looping que ninguém conta, aquele momento calmo seguido de uma virtuosa erupção de adrenalina.

 

 

Com crime voltamos a relembrar Goodfellas, aqueles senhores que relatam, na primeira pessoa, todas as infelicidades que viveram. Sim, relatam-nas tão doce e animadamente que quase se esquecem como tudo termina. Mas nós sabemos como termina! Oh Sim! Nós sabemo-lo tão bem quanto eles, e no entanto amarramo-nos à cadeira como aqueles homens, aqueles pequenos e grandes sacanas se agarram à vocalidade pastora de infortúnios.

 

 

Seguindo com perplexidade cada plano mais estranho que o anterior, cada movimento repentino, cada balada que toca de fundo. Aí está uma percepção interessante, quem se tem que fazer à vida não é o campo, mas o contra campo para desenvolver o campo. Quando o campo não está suficientemente abastecido de empolgantes momentos, mete-se a câmara a mexer, e assim, meus caros, andamos na montanha russa. Claro que não pode ser tudo a andar às voltas como naquela fabulosa montanha, há que descansar e acalmar e apreciar o que nos rodeia, principalmente aquilo que está perante nós quando estamos bem no alto. E depois pegando na atracção, ele metaforiza-a, ele coordena, ele repensa, e constrói uma conjuntura que pasma. Isto é inteligência a filmar, isto é a busca do movimento, essa coisa que se chama movimento, esse pequeno trabalho tão reivindicativo da arte cinematográfica. E por trás de toda a cénica um senhor coordena-a, respira-a, e lisonjeia o espectador. Talvez seja com o movimento que temos de aprender, porque mesmo estar parado é um movimento, tal como o escuro é um movimento, tal como o silêncio, e há que respeitar esta cumplicidade entre cada aspecto cinematográfico, há que saborear o que está para vir e o que está a acontecer. Há que aprender com quem ensina inconscientemente, porque Scorsese não cai em futilidades, aproveita cada momento.

 

 

Casino está esculpido até ao mais ínfimo pormenor, laborado até à exaustão. Será que há problema pensar em esculpir tanto pormenor? Não me parece. O resultado será claramente brilhante. Casino como muitos filmes de mestres, de senhores que percebem de uma coisa que se chama Cinema, despe o seu desinteressante e andrajoso fato, e depois cobre-se com um manto caloroso digno do mais sublime rei.

tags:
publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 15:02
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2010
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2

3
4
5
6
7
8
9

11
12
13
14
15

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


Últ. comentários
Embora o filme não seja nenhuma obra prima, penso ...
Boas mt thanks isto é bastant agradavel... esse po...
DIOGO: Muito obrigado pelo comentário.BRUNO: Sê be...
Obrigado. Diogo, já debatemos muito a genialidade ...
Pedro, excelente texto. Parabéns - por este, e pel...
arquivos
subscrever feeds

blogs SAPO


Universidade de Aveiro