Segunda-feira, 06 de Fevereiro de 2012

Quando apresento este filme realizado por John Carney dizendo que custou 130.000€ e que fez sensivelmente 20.000.000 de dólares pelo Mundo inteiro, conseguindo o feito de multiplicar cem vezes o seu custo, a resposta que me irão dar provavelmente será que a língua do filme é o inglês.

Antes de mais, não será esse o problema que anula o cinema português neste caso, e o caso de A Arte de Roubar de Leonel Vieira, também ele falado em inglês que se mostrou mais um falhanço de bilheteira?

Once não tem super estrelas, provavelmente Glen Hansard e Markéta Irglová não eram estrelas como Nicolau Breyner nem Soraia Chaves, internacionalmente, tanto Hansard como Breyner representam o mesmo a nível de bilheteira, ambas caras desconhecidas até á data, mas que diferença haverá entre um e outro?

Nicolau Breyner em Portugal é uma cara conhecida, Soraia Chaves é um corpo conhecido, sinónimo de qualidade, ou pelo menos ainda leva bastante público português ao cinema pelas suas proezas no acto de simulação sexual, no entanto, internacionalmente Glenn Hansard e Irglová serviram Once de uma forma muito mais tentadora, nenhum dos dois sendo actor profissional, ambos eram músicos profissionais que no filme representaram extraordinariamente dois músicos de rua com que o público se maravilhou muito mais, pelos vistos cem vezes mais do que se maravilha com o corpo da Soraia Chaves. E não só foi um dos factores do sucesso de bilheteira como deu origem a uma banda sonora que rendeu também imenso no mercado.

Carney recorreu a dois músicos profissionais com características que garantiram o sucesso do filme, a sua genuinidade musical e na representação, e para o efeito vendeu muito mais do que ter um corpo belíssimo ou um autor cujos atributos poéticos assentes em dogmas são pelos vistos sinónimo de qualidade.

O filme também não foi feito em décors complexos, não teve as mais-valias daquilo que a maioria dos cineastas portugueses se defendem, como o carimbo de qualidade da pelicula, uma imagem soberba conseguida com enquadramentos altamente poéticos, o filme não tem nada disso.

Lendo uma entrevista do realizador apercebo-me de uma confiança que não há nos cineastas portuguesas, ele refere-se a ele mesmo como um low-budget filmmaker, ele sentia-se confortável em trabalhar com pouco orçamento e com actores não profissionais. Ao contrário da maioria dos realizadores portugueses que parece não se quererem encaixar na sua posição de realizadores de filmes low-budget queixando-se de que não há dinheiro para fazer cinema em Portugal quando os seus filmes custam três vezes mais que filmes como o Once.

Enquanto um realizador assume que é capaz de gerir um filme de baixo orçamento, em Portugal onde a prática é recorrente, a teoria mantém-se arrogante como se cada cineasta gerisse um cinema digno de orçamentos astronómicos. Isto resulta em más políticas de gestão de recursos e a desperdiçar dinheiro de uma forma impensável. Será necessário que os cineastas adoptem uma postura de baixo orçamento e que pensem em formas de realização flexíveis e inteligentes que não consumam tudo aquilo que está por trás da câmara deixando vazio aquilo que se mete á frente dela.

O filme foi filmado em digital, os décors eram casas de amigos e foi filmado praticamente com luz natural. Isso abriu imensas portas e uma delas foi que o filme se tornasse concebível. No entanto, baixo-orçamento não significa pouca experiência, e Once é prova disso, porque todos estes constrangimentos não mostraram perturbar o público que garantiu uma soma total de 20.000.000 de dólares.

Fazer das desvantagens, vantagens, apesar de o filme ter um aspecto extremamente amador, o realizador diz que acaba por ser uma vantagem porque o filme aparenta aquilo que é, um filme feito com pouco orçamento, o que de certa maneira pode ter cativado a curiosidade do público, ver algo feito com tão pouco dinheiro. No final da entrevista, o realizador explica que mesmo que tenha mais dinheiro para o seu próximo filme, irá utilizá-lo cuidadosamente.

Once vence também o Audience’s Award no Festival de Sundance, festival longe da realidade portuguesa, demasiado preocupada em satisfação artística e intelectual com festivais como Cannes, Berlim ou outros menos conhecidos cujos nomes para mim se mantêm impronunciáveis.

Apesar de Once não ter sido um filme com um planeamento virado para as audiências e apesar de não ter feito um estudo de mercado para o seu sucesso, não deixa de ser um exemplo valioso a seguir.

Principalmente por um aspecto que a cinematografia portuguesa enaltece mas tem sido sucessivamente desprezado dado a sua irrelevância é o espírito de criar um objecto único.

Cada cineasta português faz uma abordagem incorrecta ao mercado, ou se pensa que os seus filmes vão valer pelo seu lado imitador de fórmulas quer sejam de Hollywood ou de thrillers britânicos ou pelo seu lado inimitável autoral e artístico que se baseia numa matriz poética já esgotada há imenso tempo.

Quando se justifica que o valor no cinema português está intimamente ligado ao seu lado autoral, à sua identidade, ao facto de ser único no mundo, filmes como Once revelam-se verdadeiramente únicos e conquistam públicos.

A verdade é que quando o cinema português se vê confrontado pelo porquê do seu lado único e irrepetível a resposta tende para um estereotipado e ridicularizado lado poético e artístico dos seus filmes, tornando-se assim a justificação tão vaga como os resultados irrelevantes dos seus objectos. No entanto se perguntarmos o que Once trouxe de novo e único ao Mundo a resposta parece simples, num género em que parecia difícil de inovar, o Musical, que habituou públicos a extravagâncias surge um filme que mantém a qualidade básica do género, ou seja extraordinárias composições musicais, tanto que até venceu o Óscar da Academia para melhor Canção Original e revela um novo lado do musical, único neste filme, que é mostrá-lo como se este surgisse de uma forma natural sem qualquer artifício extravagante com uma genuinidade até então inalcançável.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 23:48
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