Domingo, 17 de Abril de 2011

Calmamente num campo luzidio de girassóis, o céu azul e puro ilumina o amarelo e o verde das contorcidas flores na sua beleza orgânica e saudável. Fim.

 

 

 

 

Estamos num tanque sujo, viscoso, com água que salpica no chão. Entram os soldados, vamos à guerra! Adeus ao que conhecemos como o mundo, estamos dentro de um tanque e ao nosso lado temos soldados sujos que arquejam. Por uma mira telescópica vemos entranhas, vísceras, sangue, demência, vemos o medo, sentimos o medo, deixamos de respirar a guerra, esta é que nos respira. De repente, ouvimos um barulho arrepiante, metal arranha metal, os nossos ossos enregelam, as pupilas dilatam como tal efeito secundário, uma bomba explode, nós arrebentamos o mundo, não queremos, mas somos nós, estragados e temporários espectadores do mal. Ai a claustrofobia! "Libano" é tão aterrador que sentimos picadas nas pernas, sentimos bichos a tomarem o nosso corpo, insectos que nos degolam, que cobrem o nosso ser. Causadores de ruínas, mesmo ao nosso lado!

 

 

 

E depois... Quando nos pensam suficientemente perturbados, cheiramos o que nos rodeia. O visco escorre da parede, o sangue escorre dos corpos, e o olhar, o olhar! Como uma injecção, como uma força que transcendi a natureza, como algo irreal, como uma nova experiência da vida, o olho abre-se, vive, aquele olho, é o olho que nos perturba ainda mais! O olho vê, e por causa dele nós vemos! E o mais terrível, é que ao vermos olho, vemo-nos a nós próprios, tão vivos, tão alterados, tão cheios de tudo menos de nada! É triste dizê-lo, mas Libano é revigorante, um filme tão cheio de força. Libano é um filme canibal, devora tudo, devora o espectador. Na verdade o Libano é um filme para adorar, porque dançamos com ele numa bela música, essa música não tem qualquer melodia, não tem qualquer som, é a música da verdade, é a música do negro e ácido dia dentro de um tanque de guerra.

 

 

 

O aspecto deste dia é tão volúvel, que temos medo de escorregar na porcaria que vai no chão, de explodir dentro do tanque, de morrermos por tudo menos o que esperamos. O Libano é assim, é selvagem. Tão impressionante que amarra o espectador ao seu ferro, ao seu cimento, à sua

 

carne e às suas lágrimas por chorar. Quando respiramos outra vez, já não respiramos da mesma maneira. Cheirámos a podridão.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 14:00
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