Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

Um autor não tem direitos. Eu não tenho nenhum, apenas deveres” Jean Luc Godard

 

Pegando numa citação de Jean-Luc Godard, defensor máximo de uma identidade de autor, cimentada por uma maioria de “autores” de um país e

de uma certa arte, apesar de não acreditar na ausência de direitos penso antes sobre quais deverão ser uns e outros.

 

Se um autor tem o direito a uma identidade, tem o dever de não se acomodar a ela.

 

Se um autor tem o direito a exprimir-se, tem o dever de compreender a arte pela qual se exprime.

 

Se um autor tem o direito de ser livre, tem o dever de trabalhar essa liberdade.

 

Se um autor tem o direito à liberdade, tem o dever de excluir egoísmos e autismos.

 

Se um autor tem o direito a exprimir-se, tem o dever de se actualizar sobre os métodos e competências técnicas que surgem intrínsecos à sua forma de expressão.

 

Se um autor tem o direito a um rosto, tem o dever de não o esconder por trás de uma máscara.

 

Se um autor tem o direito à poesia, tem o dever de fazer poesia, não forçar ambiguidades irrelevantes ou tomar posturas demagogas.

 

Se um autor tem o direito de falar por um povo, tem o dever de falar por esse povo e não falar somente para esse povo.

 

Se um autor tem o direito de ser remunerado, tem o dever de agir com profissionalismo.

 

Se um autor tem o direito à espontaneidade, tem o dever de ruminar essa espontaneidade.

 

Se um autor tem o direito de confiar em si, tem o dever de confiar no julgamento de outros.

 

Se um autor tem o direito de recusar abordagens aos seus projectos, tem o dever de justificar essas recusas evitando suportar-se em

argumentos vagos, análogos do vazio.

 

Se um autor tem o direito de não fazer filmes para crianças, tem o dever de não criar diálogos e personagens como crianças.

 

Se um autor tem o direito a errar, tem o dever de compreender e tentar contornar o erro.

 

Se um autor tem o direito a não contar uma história, tem o dever de não chamar “burros” ou “ignorantes” àqueles que não percebem o que não

existe.

 

Se um autor tem o direito a recorrer a práticas menos interessantes, tem o dever de o fazer de um modo universal de modo a que a universalidade cubra o método.

 

Se um autor tem o direito a vitimizar-se, tem o dever de não fazer vitima uma audiência.

 

Se um autor tem o direito a realizar obras junto de um público que não o compreende, tem o dever de tentar compreender o porquê de não haver público, não só junto de si, mas também no resto do Mundo.

 

Se um autor tem o direito à liberdade, tem o dever de tornar interessante a sua obra, principalmente quando está ciente de que esta desinteressa.

 

Se um autor tem o direito a experimentar, tem o dever de experimentar inovando e não de “experimentar” copiando.

 

Se um autor tem o direito a ser diferente, tem o dever de se destacar pelo interesse e originalidade dessa diferença e não ser diferente apenas por ser.

 

Se um autor tem o direito a fundos de um Estado, tem o dever de contribuir para o seu desenvolvimento.

 

Se um autor tem o direito a ser artista, tem o dever de fazer com que a sua obra seja publicada, difundida e confirmada.

 

Um autor tem o direito de se assumir como autor.

 

Um autor tem o dever de não se conformar com essa posição de autor.

 

Um autor tem o dever de credibilizar essa posição não só junto de si mas pelo resto desta esfera manchada de água e terra.

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 22:34
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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

P.T. Anderson tem-se vindo a afirmar como um realizador de excelência com os seus trabalhos anteriores. No entanto "Haverá Sangue" é prova dessa excelência, é o grito de existência de um génio, é a marca de uma obra-prima. "Haverá Sangue" é o melhor da década e é, indubitavelmente, um dos melhores filmes da história do Cinema.

 

 

 

 

 

O arquétipo de como aproveitar os meios, de como conjugar as forças de uma equipa coordenada pelo novo génio cinematográfico, um novo Kubrick, seu nome P.T. Anderson. Versátil no género, versátil com a câmara, "Haverá Sangue" é um filme calmamente arrepiante, de tal modo arrepiante que tudo treme ao vê-lo e a ouvi-lo, tudo treme de frio, de perturbação, tudo fica céptico, tudo se deixa cair no nosso ser aos pés de uma jornada incomparável de um homem, Daniel Plainview. Tão calmo, longos planos, invadidos de um tratamento condescendente, que dá tempo a tudo o que filma, que dá tempo à beleza da imagem, à frieza dos acordes musicais e à profundidade de voz e expressão dos personagens.

 

 

 

 

 

 E é com uma calma confusa, que um ardente grito de violino incendeia os sentidos, ao mesmo tempo que do negro passamos para a imagem, para o completo, para o sublime, uma enorme encosta, despida, rija, seca, imponente, estrondosa, tal como Daniel. Uma picareta bate em pedra dura, um homem só, numa mina, num buraco. Um homem que parte uma perna, que rasteja pelo meio do nada, por cima de terrenos agrestes, aceitando tal penitência silenciosamente, em favor do sucesso.

 

 

 

 

 

Não há qualquer palavra no inicio de "Haverá Sangue", e quando temos conhecimento da fala neste, a primeira vez em que se coordena voz e gesticular ouvimos tais palavras: "If I say I´m an oil man you will agree". E todos concordam, o que há para discordar? Deste homem negro como o petróleo que extrai das entranhas da terra. Tudo fica manchado de negro, vermelho e suor. É esta sujidade, tão própria da vida, que faz com que esta perturbadora obra sobre a ganância, a avareza, a solidão, seja encarada cheia de vida, vida morta, que tem aquilo ainda não morto, mas certamente perto, é da natureza que cresce, que liberta a calma e a condescendência de um processo lento.

 

 

 

 

 

 

Daniel Plainview é assim a bandeira de um novo cinema, de uma nova dialéctica, sem receio em se esconder em narrativas clássicas, numa prosa sem narrador, onde Anderson abusa vorazmente da narrativa cinematográfica, apenas por imagens, trabalha com aquilo que vemos, encena tudo que está diante de si, cria essa realidade crua, esse medo pela proximidade, pelo fascínio em estar de fora, estar tão afastado que transpomos a barreira que nos separa do que vemos.

 

 

 

 

 

Esta narrativa cinematográfica é tão forte que ficamos intrínsecos à história, é este novo cinema, de contar uma história por imagens e sons, este novo cinema de P.T. Anderson em "Haverá Sangue", que finalmente ultrapassa o limite entre a poesia e a prosa, entre o indecifrável e o conciso, porque o que nos é revelado é, se não dos mais belos poemas, sem propriamente se tratar de um paradigma do egoísmo ou do individualismo, cuidado, não falo sobre a história, mas sobre o processo.

 

 

 

 

 

 É o aproveitar dos meios, é uma produção ágil, após um processo de investigação é recriar o que existiu, pensar onde colocar a câmara, e fascinar, é fazer com que violino arranhe piano, com que a imagem fira a alma, com que o ser se sinta invadido pelo sublime, pelo belo. Uma obra de arte não é efémera, caminha sem se desarticular nunca com o tempo, uma obra de arte fica ligada a uma pessoa até ao fim da sua vida, assume-se como parte da vida de outrem sem ser a do seu criador.

 

 

 

 

 

 "Haverá Sangue" é uma obra de arte, duradoura, eterna, é cinema, é a prova do belo na sétima arte, a revelação do estranho, é tornar grandiosa a realidade, é conseguir arrancar naturalmente todo o Mundo, é a transformação do homem no transcendente, sem no entanto confundir. Isto é arte, esta poesia que se percebe e não ofusca, que não tem contratos com a ambiguidade. Se há ambiguidade em "Haverá Sangue" é porque surge naturalmente, não forçada porque é moda ou porque se pensa que é a fórmula para um sucesso garantido. "Haverá Sangue" é aquilo que é, o cinema que conquista um publico.

 

 

 

 

 

 

"Haverá Sangue" é o cinema aclamado mundialmente, e com toda a razão, é o cinema que serve de modelo a uma geração, "Haverá Sangue" é o cinema que deve inspirar novos cineastas, deve ser o marco do devir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 22:15
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