Sábado, 16 de Outubro de 2010

Viveremos todos. Independentemente da maneira como vivemos, todos acabaremos por ser iguais. Barry Lyndon marca a evolução de um homem na sociedade, uma fase ascendente de uma "criatura" até se tornar um ser honrado.

 

 

Com Kubrick seremos sempre remetidos a uma viagem que terá como base um estudo profundamente antropológico. O ser humano encontra-se no centro da tela, e Kubrick como qualquer artista reproduz a sua arte. As heranças de Kubrick são assaz artísticas, conjugadas com a sua inteligência e minúcia, o seu cinema vem de toda a arte e não especificamente de uma só arte. Ao iniciar Barry Lyndon com “Sarabande” de Handel, Kubrick ensina o espectador sobre a força do filme. Uma imagem inerente a uma melodia, conseguirá aquilo a que chamo a derradeira emoção cinematográfica, mais precisamente a derradeira emoção artística, aquela que conseguirá transmitir ao receptor, seja qual for a forma de comunicação artística, a emoção até então pouco ou nunca antes sentida. Uma emoção cujo nome não lhe encontro, e não necessariamente indescritível ou mesmo inexplicável.

 

 

 O cinema tornar-se-á música, tornar-se-á pintura, tornar-se-á drama, literatura, tornar-se-á arte, vida. Em dois andamentos testemunhamos uma história de um homem. Pequenos acidentes, cuidadosamente narrados, irão conduzir Redmond Barry a Barry Lyndon. A austeridade é revelada em cada plano de Kubrick, um plano terá que ser então densamente ruminado e não espontaneamente exercido. A essência paisagística surge intrínseca à belíssima fotografia impressionista, será a luz que definirá a cor das formas, a sua linearidade natural será exposta da maneira mais fascinante, relembrando assim quadros de Degas ou Monet.

 

 

 Claramente extraordinária esta percepção de Kubrick quanto à filmagem, criando momentos que deixam o espectador céptico pelo esplendor que o invade. Barry Lyndon transmite assim a harmoniosa conjugação, prova que o cinema é uma arte, que usada não de um modo desmesurado, mas sim correcto, poderá elevar o sentimento humano, poderá guiar ao esplendor.

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 13:10
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Domingo, 10 de Outubro de 2010

É indubitável que a saga Star Wars é um marco cinematográfico. Agora o porquê desta afirmação? Por vezes surgem filmes que têm uma capacidade extraordinária de nos fazer sonhar, de nos conseguir transpor para outros mundos. Há filmes que nos conseguem encher de fantasia, que são meramente utópicos, mas a utopia com que somos assaltados é coerente, é mágica, faz-nos querer pertencer a esse novo ambiente.

 

 

Por algum motivo Star Wars se torna num dos épicos mais badalados da história do cinema, é a sua imponência, é a sua originalidade, são os seus métodos inovadores, e como nos sentimos infantis perante tal acontecimento. É nisto que Star Wars é bem sucedido, na maneira como cria personagens carismáticas, épicas, como avança com uma postura preponderante na nossa imaginação. George Lucas criou uma saga épica, uma epopeia inesquecível e o filme que eu visualizei (e não foi a primeira vez que o vi, mas sim a primeira vez que me disponibilizei a escrever sobre ele) trata-se de um dos episódios mais mediáticos, talvez seja aquele que nos deixa mais na expectativa.

 

 

 O seu final é arrebatador, frenético e intenso. O filme que nós desejamos que nunca acabe, que tem os seus grandes momentos, momentos que nos deixaram boquiabertos a primeira vez que os testemunhámos, o filme que mais nos surpreende. É interessante descobrir o mestre Yoda e todo o labirinto que este filme representa, aquilo que nos propõe a conhecer de novo, a desdobrar a teia. É um filme com cenas únicas, grandiosas, emotivas, excepcionais.

 

 

 E tal como a restante saga teremos que distinguir Star Wars de um filme sensacionalista. Claro que são filmes que sobrevivem devido ao seu sensacionalismo, como são sublimes, mas no entanto não se pode aglutinar esse género a este épico. O que se passa é que Star Wars vive de um sensacionalismo mais requintado, mais conservado, mais harmonioso. São filmes que não se baseiam somente no espectáculo, têm uma base sólida para se assentarem.

 

 

A acção e os efeitos especiais, apesar de serem primorosos não bastam para fazerem deste filme uma obra-prima da ficção científica. Star Wars é muito mais, é um momento inesquecível. São filmes que nos deixam agarrados onde nós estamos, que nos fazem desejar por mais. São obras muito bem elaboradas e Episode V não é diferente, apesar de parecer talvez o filme que eu menos tenha amado, não se traduz que o considere digno de menos excelência.

 

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 19:05
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Sábado, 09 de Outubro de 2010

Quando eu vejo "Casino" sei perfeitamente quem o realizou. Aquele toque excêntrico, ousado e alucinante só pode ser de uma pessoa. Quando vejo aquele equilíbrio tão orgânico entre travellings longos e cortes rápidos compreendo que por trás das câmaras há um senhor chamado Martin Scorsese. Ao sermos encharcados com vitalidade cinematográfica, com uma câmara volátil que persegue sem piedade o fio do novelo, esse novelo que, tão poderosamente, poder-se-á chamar história. Scorsese desenrola o novelo como um ancião conta uma história. Cada bocadinho de fio é desenrolado da maneira mais deliciosa até serem só linhas espalhadas anonimamente e ao acaso para chegar ao fim, ao pólo oposto do novelo, que se encontra bem escondido num núcleo que é quase onde tudo começa. Um filme de Scorsese é como uma montanha russa que até então desconhecemos. Esperamos por todo o tipo de emoções empolgantes, de constantes doses de speed completamente extraordinárias que nos são despejadas pelo nariz adentro, aquele looping que ninguém conta, aquele momento calmo seguido de uma virtuosa erupção de adrenalina.

 

 

Com crime voltamos a relembrar Goodfellas, aqueles senhores que relatam, na primeira pessoa, todas as infelicidades que viveram. Sim, relatam-nas tão doce e animadamente que quase se esquecem como tudo termina. Mas nós sabemos como termina! Oh Sim! Nós sabemo-lo tão bem quanto eles, e no entanto amarramo-nos à cadeira como aqueles homens, aqueles pequenos e grandes sacanas se agarram à vocalidade pastora de infortúnios.

 

 

Seguindo com perplexidade cada plano mais estranho que o anterior, cada movimento repentino, cada balada que toca de fundo. Aí está uma percepção interessante, quem se tem que fazer à vida não é o campo, mas o contra campo para desenvolver o campo. Quando o campo não está suficientemente abastecido de empolgantes momentos, mete-se a câmara a mexer, e assim, meus caros, andamos na montanha russa. Claro que não pode ser tudo a andar às voltas como naquela fabulosa montanha, há que descansar e acalmar e apreciar o que nos rodeia, principalmente aquilo que está perante nós quando estamos bem no alto. E depois pegando na atracção, ele metaforiza-a, ele coordena, ele repensa, e constrói uma conjuntura que pasma. Isto é inteligência a filmar, isto é a busca do movimento, essa coisa que se chama movimento, esse pequeno trabalho tão reivindicativo da arte cinematográfica. E por trás de toda a cénica um senhor coordena-a, respira-a, e lisonjeia o espectador. Talvez seja com o movimento que temos de aprender, porque mesmo estar parado é um movimento, tal como o escuro é um movimento, tal como o silêncio, e há que respeitar esta cumplicidade entre cada aspecto cinematográfico, há que saborear o que está para vir e o que está a acontecer. Há que aprender com quem ensina inconscientemente, porque Scorsese não cai em futilidades, aproveita cada momento.

 

 

Casino está esculpido até ao mais ínfimo pormenor, laborado até à exaustão. Será que há problema pensar em esculpir tanto pormenor? Não me parece. O resultado será claramente brilhante. Casino como muitos filmes de mestres, de senhores que percebem de uma coisa que se chama Cinema, despe o seu desinteressante e andrajoso fato, e depois cobre-se com um manto caloroso digno do mais sublime rei.

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publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 15:02
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Domingo, 03 de Outubro de 2010

Casablanca, cidade marroquina filmada num grande estúdio de Hollywood. Vivia-se então os tempos áureos de Hollywood, e apesar de se fazerem tramas demasiado dramatizadas, drama acrescido que provoca previsibilidade fácil, mas que no entanto não atenua na totalidade a grandeza de Casablanca. O que antigamente seriam filmes a lutarem pela grandeza de trama, pela inteligência na intriga, pela explosão (um pouco desnecessária) de sentimentos, transformou-se hoje, em remakes atrás de remakes, em sensacionalismo sem sabor e na maioria das vezes imaturo.

 

 

 E assim Casablanca surge como possivelmente um dos mais amados filmes feitos na idade de ouro de Hollywood. Um clássico eternizado por um excelentíssimo figurão, chamado Humphrey Bogart. Acusarei Bogart de ter um papel tremendamente preponderante nesta trama. Será provavelmente das melhores prestações de um artista da representação nestes tempos precedentes à actual modernidade. Bogart transmite tal calma, serenidade, eloquência que me faz sentir invejoso. Ciumento por assistir a personagem com manias tão sublimes. Apresentando-se despreocupado com o que o rodeia sempre na perfeição, Bogart consegue um papel frio e cauteloso.

 

 

 Depois teremos sempre aquele exemplar brilhantismo que emanava nos grandes planos das actrizes, neste caso, posso afirmar que em cada grande plano de Ingrid Bergman, ela literalmente luz. Aquela capacidade de fazer luzir a actriz poderá condensar a expressão de estrela. Avantajando o protagonismo acaba por revelar-se uma belíssima e clássica técnica, que caiu (penso eu) em desuso com as maravilhosas cores. No entanto Casablanca não será obviamente estrelas, impossível será olvidar aquele ritmo frenético, aquela trama imprevisível e cativante. Aqueles momentos que marcaram uma arte que hoje é demasiado espectáculo, chamada cinema.

 

 

O que se pode aprender com Casablanca, será claramente a força da estrutura, o poder de ter algo no papel com pés e cabeça, a capacidade monumental que tem a mente humana em criar, em desenvolver, e em transformar aquilo que está na mente em imagem, em situações, em realidade. A magia do cinema será muito provavelmente conseguir transformar o nosso pensamento em algo real, belo e uno. A imagem existe, uma vez existindo a imagem, só falta transportar aquilo que imaginámos para dentro dela, e depois, compreender, como os autores de Casablanca certamente dominavam, a importância do plano em cinema, o plano como o meio de transmitir, o plano que é o resultado e que será a percepção do espectador sobre o que vê, então cada plano funciona com o anterior, evitando futilidades.

 

 

Casablanca foge desde o primeiro momento a um estatuto de efémero e é instantaneamente carimbado com a eternidade. No final, quando Rick diz "I believe this is the begining of a beautifull friendship", eu também acredito que grandiosa amizade despoletou neste solene final, uma amizade entre esta obra e a história do cinema.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 00:18
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