Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010

Um ladrão tem sempre por trás outro ladrão. Pode-se criticar um ladrão por o ser? Devemos nós apontar o dedo a um criminoso? Não acabamos todos por ser criminosos?

 

 

Uma sociedade apagada, as pessoas andam às escuras, a palpar a sua própria sobrevivência. A pobreza conduz ao desespero, o desespero conduz à tragédia. Todos queremos viver, e não aguentamos viver na miséria, lutamos para sair dela, a nossa vida não se pode basear apenas em lutar por mais um sopro. Viver não é sobreviver. E quando se sobrevive e não se vive, a necessidade aumenta, e então temos de compreender o porquê, temos que compreender que há forças que nos ultrapassam, forças interiores movidas pelo exterior. Procuramos não nos preocupar, viver sem problemas, procuramos o amor, procuramos a amizade, procuramos acima de tudo a felicidade e o bem-estar.

 

 

Será que a população em Ladri di biciclette é assim? Não me parece. De Sica faz um estudo a uma sociedade que prolifera criminosos. Mas podemos nós chamar-lhes criminosos, a estes pobres ladrões de bicicletas? O homem move-se pela necessidade, seja bom ou mau, aliás, não há bom ou mau, são todos iguais, são todos humanos. O jovem desprezível que rouba o nosso herói, será assim tão desprezível? O interessante é que ele acaba por ser tão herói como todos os outros personagens, incluindo o principal. Simplesmente procura alimentar a sua família, simplesmente procura cuidar de quem ama. Mas acaba por ser constrangido, porque tantos outros também o são, e debatem-se contra esse constrangimento.

 

 

A sociedade de De Sica, a sociedade do neo-realismo italiano é uma sociedade presa no caos dos prédios degradados, nos bairros operários, na sopa dos pobres, e no seu sofrimento. É engraçado como Ladri di bicicletti tem mais de sessenta anos e mantém-se actual. Uma criança de mão dada com o pai, o rosto sujo por cair na lama, chora quando este lhe bate, e quando este para a salvar a humilha. Um pai, chefe de família, alto e magro, um rosto sofrido, um andar ansioso e inquieto, lágrimas que escorrem do rosto de este homem honesto e infeliz.

 

 

 Comove ver uma pessoa que vê a luz da esperança, e do nada apagam-na, comove ver esta pessoa por sabermos que é uma sociedade. Comove saber que esta sociedade é injustiçada, paupérrima, infeliz e mísera. Ele é estrangulado pela multidão, mas também ele estrangula e cada pessoa que faz parte dessa multidão é estrangulada e estrangula o que vai ao seu lado. Cada um por si, porque ninguém ajuda.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 09:03
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Domingo, 26 de Setembro de 2010

Um jovem dançarino que aprendeu a dançar.

 

 

Bairros que enclausuram os seus habitantes, e assim limitam as suas vivências e mentalidades. Billy Elliot não retrata a perseguição de um sonho, mas uma sociedade necessitada de um devir transformativo da sua regularidade. Duas lutas, um jovem que luta para alcançar aquilo que nem ele próprio conhece, e homens que lutam contra o poder.

 

 

Quando amamos algo precisamos de o conhecer? Não será essa paixão intrínseca à nossa mecânica? Um rapaz cuja energia infinita se liberta com a dança, uma comunidade que o constrange postulando as normas da convencionalidade. Trata-se de um retrato fiel da firmeza do fado? Ou será Billy Elliot tudo menos fatalista e completamente humanista?

 

 

 Surge a necessidade num ser quotidiano, uma necessidade de libertação, uma necessidade incompreendida por muitos e a beleza no movimento corporal irá prevalecer sobre as leis sociais vigentes. Ao tratar-se de uma história cuja emocionalidade é elevada, a mudança surge quando mais necessário, aumentando por completo os níveis emocionais do espectador. Surge assim um filme sobre beleza humana, não só a beleza do talento, mas a beleza do sentimento, da força e da bondade. Torna-se aprazível assistir a uma obra onde a carga emocional toca o espectador, a solidariedade revela humanidade, descobrindo o altruísmo na frieza. A mudança que se espera não surge, mas sim outra diferente que surpreende.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 11:37
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Terça-feira, 21 de Setembro de 2010

As personagens são meras cobaias para se estudar uma situação. Rohmer brinca aos fantoches com os seus personagens. Tenta descobrir uma moralidade infinitamente ambivalente e demarcar a sua ambivalência. A força do sentido da paixão, momentânea ou construída.

 

 

Qual o recurso para cimentar laços? Amizade ou atracção? Rohmer consegue prender o espectador a questionar-se constantemente, descobrir a verdade, descobrir filosofias, obriga a um novo estado de compreensão. O ser é submetido a um jogo, fica à deriva nas mãos da superioridade que o controla. Diálogos incessantes e interessantes, revelam personagens inteligentes que se movimentam com clareza no ecrã.

 

 

A proximidade entre o personagem e o espectador varia entre o distanciamento longo e curto. Os afectos são verificados não por uma descoberta visual evidente mas por um sentimento de análise. Temos a perspectiva de um homem que irá ter um Verão livre em relacionar-se, um teste a ele próprio para se estudar uma situação no global. O humano está confinado a atracções, e perguntemo-nos se existirá uma derradeira atracção, a final, que jamais se equipará a qualquer outra.

 

 

Um estudo interessante, não surgirá constantemente novas paixões, belas como as montanhas que rodeiam jovens raparigas na flor da idade? O homem é submisso aos seus instintos ou aguentará manter-se fiel aos seus escrúpulos? Uma questão lança outra questão e Rohmer é um realizador eficaz, um verdadeiro antropólogo, um senhor da minúcia humana. Consequentemente O Joelho de Claire é um filme que atrai pelo seu erotismo escondido e pela sua sensualidade aberta.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 18:37
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Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

Em Sacanas Sem Lei há respeito pelos princípios cinematográficos. Partindo da análise respeitante à essência cinematográfica como matéria-prima, posso concluir que esta película recorre a ela com uma fluência original e prometedora.

 

 

Movimento! Cinema é movimento. Tarantino consegue captar extraordinariamente o movimento. Supera as suas referências na medida em que utiliza a herança da melhor maneira possível. Audaz no modo como reutiliza o que foi deixado para trás, Sergio Leone conduz Tarantino nesta obra. Transportar o que o Western pode representar para a Guerra foi um trunfo. A maldade e astúcia, os confrontos e os tiros implacáveis são características comuns a estes dois géneros.

 

 

Voltando ao movimento, uma característica preponderante para compreender o resultado de Sacanas Sem Lei, temos que compreender que para este funcionar, há que funcionar o movimento. O movimento é na realidade aquilo que consegue destacar o cinema das restantes artes.

 

 

Como tal, Tarantino eleva o cinema duplamente. Não só por homenageá-lo trabalhando meticulosamente o que se insere no campo visual do espectador, mas também por dar término a uma monstruosidade através da sétima arte. Conhecendo tão profundamente o modo de realizar um filme, emociona então a partir do momento em que passam os créditos iniciais, uma música lírica soa ao mesmo tempo que nos apercebemos que iremos assistir a algo memorável, grandioso como "The Green Leaves of Summer".

 

 

 A qualidade do diálogo, já e prática comum na obra de Tarantino, e aqui não é excepção. A fotografia melhora, os restantes aspectos técnicos estão cada vez mais cuidados, a banda sonora reaproveitada mas eficaz e personagens, como sempre, bem caracterizados e representados.

 

 

Somos submetidos ao factor surpresa, nesta obra que transparece um pouco o absurdo e o exagero, que acaba por ser interessante quando nas devidas proporções. Momentos inesquecíveis, Sacanas Sem Lei revela-se uma obra que não compromete e inova no género conseguindo sempre deixar o espectador incrédulo. E como Raine diz no final do filme a Utivich, "I believe this is my masterpiece", não direi que seja esta a derradeira "masterpiece" de Tarantino, mas sim uma das suas. A obra dirige-se assim para um novo patamar de congratulação, assume-se como um filme revigorante do cinema moderno, e sobretudo uma delícia para o espectador que pode desfrutar duas horas e meia incomuns.

 

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 14:18
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Sábado, 18 de Setembro de 2010

Sequela de um épico memorável. 2ª Parte de uma obra incrivelmente bem elaborada. Estes dois primeiros filmes são notáveis pela forte presença do cinema. A imponência é inesquecível, o resultado é fabuloso, e assim The Godfather: Part II surge tão extraordinário como o primeiro.

 

 

A viagem por uma família poderosa, sentimos o seu poder, e centramo-nos em dois personagens, pai e filho. A analogia entre o comportamento de um e de outro é impecável, dois modos de liderar diferentes mas arrepiantes. Temos um "old-fashioned" Vito e um moderno e mais pragmático Michael.

 

 

Nesta sequela seguimos a funcionalidade da primeira obra, a força da liderança, o poder da presença da personagem Chefe no ecrã. Prosseguimos com a criminalidade e ilegalidade ao mesmo tempo que acompanhamos a ascendência de Vito Corleone ao poder. Esta segunda obra da trilogia pode ser dividida em duas partes igualmente geniais, uma parte quase biográfica e deliciosa ao acompanhar a subida de Vito e outra parte também ela um pouco biográfica, mas com uma intriga que balanceia entre o mistério e o filme de gangster.

 

 

É realmente interessante perceber as posturas diferentes de comandar destas duas personagens. A epopeia de chegada ao poder de Vito Corleone, na minha opinião, é sem dúvida dos momentos mais brilhantes da história do cinema. Jovem e débil rapaz, injustiçado e ciente das injustiças, acabará por subir ao trono com um espírito de coragem e altruísmo. A comparação que há entre Vito e os antigos cavaleiros, sempre respeitados pela sua benevolência, força e audácia revela aquela personagem como transportada de uma fábula para um campo improvável e um pouco irrespirável para esse cavalheirismo clássico. Robert de Niro é impressionante, a sua presença no ecrã como Don é no mínimo espectacular, a calma, a perseverança, a condescendência e o raciocínio são atributos que facilmente qualificamos a personagem pela sua actuação e também por uma realização capaz.

 

 

Do outro lado, se assim o poderei dizer, encontra-se outro jovem, que ao contrário da filantropia de Vito, tem mais tendência a isolar-se, um homem que luta pelos seus interesses de um modo demasiado sóbrio e assustador. A concentração de Michael é arrebatadora, a sua postura tende para a utilidade e menos para os laços, evidencia egoísmo e a pressão do poder, menos escrupuloso e misericordioso não receia ficar só desde que se traduza na sua liderança.

 

 

O clássico e moderno conjugam-se, como o Mundo é magnetizado para o isolamento, acaba-se a força colectiva, vive-se em torno de um Sol, e esse Sol acabará por queimar tudo que se aproxime demasiado perto. Michael é Sol, Vito é profeta tornado mito. O respeito será diferente, um é amado, outro é temido, ambos poderosos e líderes eficazes. Um grandioso clássico que rasga a veia temporal, caminha pela eternidade com tal voracidade que o torna inquebrável. O Padrinho não são gangsters a brincar aos tiros, O Padrinho é exactamente o que o titulo nomeia, o retrato de dois reis natos que apadrinharam uma comunidade tornada família.

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 19:09
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Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

Quando vi Oldboy pela primeira vez, fiquei claramente arrasado e pasmado pela sua história. A história de Oldboy é provavelmente das histórias mais bem conseguidas a serem transportadas para o cinema. Das tramas mais profundas que vi a serem executadas no ecrã. Temas fortes, personagens fortes e vivemos quase uma fantasia crua e avassaladora.

 

 

 Um homem durante quinze anos esteve preso, preso sem saber porquê, preso por algo que cometeu, e assim abandonou a sua vida. Um pródigo guião neo-noir transporta-nos para a sensação claustrofóbica de estar preso num quarto. O homem transforma-se em carne e osso e quase que o calor do sangue o abandona, torna-se frio, e num estado de depuração procura quem arruinou a sua vida.

 

 

 Mas antes de sabermos quem, queremos saber o porquê. E assim vai-se desenvolvendo uma das mais estranhas, bem estruturadas, surpreendentes tramas da história do cinema. Quase como um difícil jogo de montagem, Oldboy é um exercício complicado para o espectador, uma não convencional história, um não convencional acto cinematográfico. Visceral, violento e hediondo, imperdível. Oldboy trata-se de humanidade, da falta dela, da condição humana, de uma lágrima que ecoa solitária num rosto inexpressivo. Surrealista, não evocando tanto uma realidade alternativa, mas uma realidade "irreal", exacerbar o acontecimento, tornar seco e revelar as entranhas da maldade, reside aí a estranheza.

 

 

Oldboy é uma película una, assaz intrigante e verdadeiramente inquietante, não uma das derradeiras obras-primas da sétima arte, mas um filme que resulta porque quase que seria impossível de não resultar, funciona por si mesmo, não precisaria claramente de uma genial direcção, mas até esta é bem sucedida, evocando planos por vezes também eles surpreendentes na sua beleza comedida, na sua organização nem sempre estável, optando claramente pela densidade de filmar um personagem de cima para baixo, um momento, uma técnica que fascina como sempre. O cinema é arte e há momentos cinematográficos que são pura arte. Penso que o final de Oldboy é pura arte. O último momento antes dos créditos finais, é excepcional, puramente indecifrável como o sorriso de Mona Lisa, simples e belo, uma jovem abraça um homem, este sorri, e depois, num exercício fenomenal do actor, deixa de sorrir, ou continuará a sorrir? Sofrerá pelo esquecimento ou pela lembrança? Estará feliz? Genial.

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publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 13:29
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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

Na minha óptica Stanley Kubrick foi um dos melhores e continua sê-lo. Mesmo após a sua morte, as suas obras além de serem variadas no género, são também marcantes. Eyes Wide Shut, o seu último filme, só o vem corroborar. Uma obra formidável, espectacular, e um thriller com uma formalidade arrebatadora. Um filme repleto de grandes momentos, desde o seu início com a belíssima valsa de Shostakovich, até ao final que termina curiosamente com a mesma valsa. Iremos dançar ao longo do filme com Dr.Bill e a sua atraente mulher nas suas obsessões mais profundas e na sua impotência em concretizar o adultério.

 

 

Ao longo do filme este jovem casal que ascendeu na escada social nova-iorquina é tentado a enganar-se mutuamente, talvez fruto do acaso ou da resistência, acaba por não acontecer. Kubrick estuda assim o ciúme e a falta de concretização pessoal de uma maneira muito fria. A intimidade do casal é exposta a nu, literalmente. Começamos com um belo plano de Nicole Kidman, a mulher do médico, a vestir-se, ao mesmo tempo Shostakovich invade-nos. E depois vem o onírico, o jogo de luzes e de cores de Kubrick é fantástico, na festa somos avassalados pelo poder da imagem ao transformar a realidade em sonho, o poder do surreal, a ligeira neblina causada pelas fortes luzes natalícias, começa o jogo entre o casal. Surgem oportunidades para se tornarem infiéis, mas não as chegam a concretizar, apenas no pensamento.

 

 

Mais tarde num diálogo brilhante entre o casal, Kidman revela de uma forma brilhante e forte os seus desejos profundos ao personagem de Cruise, excepcional este diálogo, imperdível, representado ferozmente, Kidman consegue traduzir na perfeição a ironia que irá causar a insegurança de Dr. Bill. Este diálogo irá estar na base da trama que se segue, o jovem doutor fica perturbado pela revelação, a paranóia invade-o, sente-se incapaz, a insegurança inunda-o e então precisa de reafirmar-se. Insere-se nos meios ambíguos e tristes de Nova York, mas sempre sem sucesso. Até que lhe é dada a oportunidade de ir a uma estranha festa. Necessitado não de satisfação sexual, mas de saber que ainda é capaz de satisfazer, Dr.Bill irá a essa festa carnal. Mas nem tudo corre bem, e numa das cenas mais perturbantes do filme, talvez a sua melhor cena, e das melhores cenas que vi até hoje, com fundo de Nuages Gris de Liszt, Cruise é descoberto, a cena da encenação (?), as máscaras fantasmagóricas e arrepiantes, a maneira como fitam Bill, a luz no centro a iluminar o seu terrível líder, o auge do thriller.

 

 

 A partir daqui começa a ficar um ritmo irrespirável para Bill e mesmo para quem vê o filme. O mistério começa a tomar uma postura cada vez mais fascinante, mais dentro do seu próprio género, somos encaminhados nas suas ambiguidades, ocultados pela sua cortina de ferro, e a lugubridade começa a tirar cor a esta fábula sobre a obsessão sexual. Bill vê-se dentro de um quebra-cabeças, tenta resolvê-lo. Acaba por ser resolvido? De certo modo sim, de certo modo não. Duvido que a resolução seja assim tão fácil, e assim fiquei com uma solução incerta, talvez porque procure algo mais, talvez porque não me acomode tão facilmente, mas é um filme digno de reconhecimento, um filme onde cada pessoa tira as suas próprias conclusões, é livre de conjecturar, um filme que dá para pensar.

 

 

 Não nos constrange de modo nenhum no seu plot, posso dizer que Eyes Wide Shut é um filme que me ficará na memória, a sua elegância, a sua estrutura, a sua frieza, a sua ambiguidade, as suas certezas, o seu onírico, a sua postura pecaminosa, a maneira clássica e formal com que Kubrick filma adequa-se na perfeição, um estilo primoroso e apelativo. Um aplauso para o final: a derradeira palavra que fecha esta encruzilhada, está muito bem escolhida, penso que é primordial no sentido do filme. E depois... a fantasia de Shostakovich e a sua valsa nº2. Acaba assim o esbelto pesadelo de Dr.Bill, terrível, estético e clássico. Um pesadelo que remete o espectador para algo inquietante e ao mesmo tempo, repleto de calma, uma realidade traumatizante.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 22:32
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Domingo, 05 de Setembro de 2010

Matemática e amor, Pascal e cristianismo. Obsessões e probabilidade. Crenças no nada, crenças em dogmas, crenças nas probabilidades, crenças na vida, descredibilizar o amor, homenagear a espontaneidade e relembrar até certo ponto o infortúnio.

 

 

 Eric Rohmer remete o seu cinema para a beleza estética, para a harmonia dos enquadramentos, para a centralidade, para a linearidade que descobre nos objectos, e depois claro, temos o debate humano.

 

 

Onde devemos nós depositar as nossas crenças? Qual o método mais correcto para darmos crédito à nossa subsistência? Rohmer estuda aqui várias teorias que servem como de suporte à sobrevivência. Será pela crença na predestinação, na casualidade? Será na crença de que todos temos uma hipótese, baseada na análise das probabilidades, será na fé em Deus, nos princípios em que nos regemos? Somos sempre fiéis aos nossos princípios, àquilo em que sempre acreditamos? Ma nuit chez Maud é um filme que faz pensar, é um impulso para reinventar o nosso pensamento, para pôr em causa aquilo que até antes não tínhamos posto em causa. Amar ou odiar o infortúnio? Devemos nós acreditar no amor? Será este fácil e não uno?

 

 

 Cada vez que penso mais no filme levanto mais questões, é por isso que Eric Rohmer consegue uma obra de excelência, pela sua complexidade, pela sua inteligência, pelas filosofias que estuda, pela luta que fazemos connosco quando somos submetidos a opostos que resultam, tudo é ambivalente, tudo tem os seus prós e contras. É incerto confiar plenamente numa doutrina.

 

 

O que Rohmer explora é o equilíbrio que temos que manter, regermo-nos por princípios, mas sem esquecer os nosso impulsos, Rohmer explora a humanidade que há dentro de nós. Somos pessoas e consequentemente teremos as nossas imperfeições, respondemos por impulsos e controlamo-nos por princípios, suportamos a vida com base em crenças e Vidal questiona que, se a vida não fizer sentido, para que serve então viver?

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 13:08
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Numa colorida orgia de puro divertimento, Amarcord luta para deixar o espectador fora daquele constrangimento causado por uma agoniante azia que chateia. Dançarinos e poetas, pudicos puritanos e cínicos revoltados, encontra-se uma mescla desmesurada de personagens em Amarcord. Feio, gordos, magros, bonitos, todos presentes numa clássica e formidável ideia do pitoresco reconfortante.

 

 

Entrega-se a uma explosão de loucura volúvel, de entretenimento saudável e de um orgânico descaramento que insinua um cinema múltiplo e complexo. Livre de escolher o caminho que segue, Amarcord conduz o espectador numa viagem sensacional por uma população que do meio nada se exalta e respira comédia. O irrisório inesquecível irá tornar cada momento imprevisível pronto a susceptibilizar o riso descomunal, a sensação natural de alegria e contentamento.

 

 

Uma realização assente num absurdo coerente, em espontaneidades acrescidas, em voluptuosos e aprazíveis corpos femininos, em cheirosos momentos dramáticos, em exagerados rejuvenescimentos pictóricos. Uma teia tão difusa e ao mesmo tempo tão compacta, que irá sublimar cada personagem com direito ao seu tempo de antena. Um virtuoso gesto cinematográfico, singelo e brilhantemente bem-disposto. Uma vitória de Fellini nesta atraente e regozijadora sátira.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 12:22
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Quinta-feira, 02 de Setembro de 2010

Tenho a impressão que quando “Psico” estreou em 1960, o sangue gelou a uma infinita multidão que se pasmou ao ver aquilo que é até hoje, um marco cinematográfico. Hitchcock criou raízes no cinema, “Psico” atinge tal profundidade que será difícil de arrancar. Invejo quem assistiu à sua estreia, quem sentiu o seu poder inicial, quem pode respirar pela primeira vez este doloroso drama, esta memorável intriga.

 

 

Vísceras e vermelho escorrem do ecrã, mesmo quando este inunda preto e branco. Sombra, luz, som que arrepia, imagens milimetricamente perfeitas, movimentos assombrosos. Um olho rodopia, ou seremos nós que rodopiamos de tal modo atordoados por um dos mais marcantes assassínios que passaram pela tela?

 

 

O cepticismo bem poderá ter transbordado nas mentes dos espectadores. Mas no final, tão intenso como todo o filme, regozijamos, regozijamos porque vimos cinema! Vimos arte! Vimos algo singular em toda a nossa vida! Orgulho-me de ter visto e vivido “Psico”. Morei ao lado de Norman Bates, conduzi com Marion e arrepiei-me com Hitchcock.

 

 

Como se poderá esquecer o clima de cortar a respiração comandado por uma banda sonora tão profunda como a própria história. Cheira a mestria esta comunhão de som e movimento e luz. Inegável será dizer que assenta que nem uma luva, uma fusão tão perfeitamente enquadrada. Um sentimento arrebatador abate o espectador no final, impressiona.

 

 

Os pontos finais e vírgulas irão marcar cada pulsação, as transacções de cena para cena, os personagens que estão intimamente ligados à conjuntura consagrada em “Psico” transformarão uma película numa experiência. Imaginemos nós, inspiremo-nos para tratar arte como esta se trata em tão esbeltos e virtuosos paradigmas. Atenção, “Psico” é um paradigma.

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publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 23:02
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