Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

Até onde vai o poder de Koyaanisqatsi? A perfeita conjugação de som e imagem. Susceptível a várias interpretações quando na realidade não necessita de nenhuma, deixemos o silêncio apoderar-se de nós, deixemos a calma invadir-nos e a escuridão rodear-nos, aí, estamos preparados para assistir a um filme completamente avassalador. Algo completamente novo passa pelos nossos olhos, algo completamente novo passa pelos nossos ouvidos, e nesse preciso momento, esse momento que se titulou de Koyaanisqatsi, pois nome teria que ter, som e imagem tornam-se uno numa beleza inexplicável. Sentimos um arrepio no peito, parece que a nossa alma quer abandonar o corpo, os nossos olhos abrem-se, ficamos sobre o efeito de um sortilégio de sereia, encantados pela beleza visual e pela beleza musical.

 

 

A imponência da monstruosidade, a grandiosidade da natureza mistura-se com a destruição do homem, com o feio, com o que não é estético, com as fábricas repudiantes, com os rostos gastos do ser humano, com as faces joviais de um negro, com uma multidão que se aglutina entre ela, aquilo que podemos considerar horrível, torna-se belo pela sua grandeza, pela sua espectacularidade. Tem de haver uma fórmula que faz com que resulte Koyaanisqatsi, essa fórmula, não matemática, mas sim artística, concentra-se na atribuição de notas musicais à imagem, enfeitiça-nos, e faz-nos compreender que estamos perante uma obra de arte. Algo único que tem um pouco de todos, um pedaço de algo que não vimos, e ao vermos, sabemos que existe, mas ficamos incrédulos, porque apesar de sabermos a sua existência nunca a tínhamos pensado desta maneira. Remete-nos para um novo pensamento cada vez que vemos esta película. Assombra o arrepio que sentimos na espinha ao ser tocados pela profundeza do esquisito que todos os dias testemunhamos e não compreendemos.

 

Podemos assim compreender a Natureza, ou seja, tudo, nós somos a natureza, tal como os desertos sem fim, como os rios que respiram entre montanhas, como as nuvens que ondulam no céu, como a água que luta no mar e nos oceanos, como os prédios que se elevam e tocam os céus, como o sem-abrigo ferido na cabeça que dementemente conta as moedas, como as fábricas que criámos e o que nelas produzimos, somos movimento, somos tristeza, somos beleza, somos o bizarro, e assim compreendemos tudo, não na totalidade, porque ninguém compreende na totalidade, mas compreendemos tudo. Somos invadidos por um pensamento poético que arranha pela sua componente metálica e pedregosa, mas ao mesmo tempo, límpido como a água e depurado pela beleza.

 

 

E finalmente tudo surge de um modo orgânico, e percebi. Não traz mensagem subjacente, escondida na sua métrica e estética, cada qual percebe e cria a sua própria mensagem, não é definido nem denunciado, Koyaanisqatsi é um filme sem nome, que tanto pode ser uma critica ofensiva como um elogio enaltecedor, cada qual conjectura sobre o significado desta obra do modo que quiser e que mais lhe aprazer. Mas uma coisa é inegável, Koyaanisqatsi assusta, assusta pela naturalidade e artificialidade, assusta por ele próprio ser um paradoxo harmonioso. O antagónico junta-se num epicentro e aqui compreendemos que este é equitativo.

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 18:04
|

De João a 1 de Setembro de 2010 às 22:50
Bom trabalho. Continua.


mais sobre mim
pesquisar
 
Agosto 2010
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29


Últ. comentários
Embora o filme não seja nenhuma obra prima, penso ...
Boas mt thanks isto é bastant agradavel... esse po...
DIOGO: Muito obrigado pelo comentário.BRUNO: Sê be...
Obrigado. Diogo, já debatemos muito a genialidade ...
Pedro, excelente texto. Parabéns - por este, e pel...
arquivos
subscrever feeds

blogs SAPO


Universidade de Aveiro