Terça-feira, 13 de Março de 2012

Estamos em 2012 e surge um filme chamado John Carter protagonizado por Taylor Kitsch, uma espécie de novo super-herói arquétipo, um corpo bem moldado que denuncia pouca esperteza.

 

O filme é realizado por Andrew Stanton que vem do mundo da animação, proposta interessante para realizador que podia trazer uma lufada de ar fresco a um género épico que se parece repetir constantemente. No entanto, o homem que esteve por trás de filmes como Wall-E e jogando com um estilo altamente iconográfico perde-se desta vez em John Carter em algo saturado de clichés estilísticos.

 

John Carter aparece assim como um filme impaciente, no mau sentido, em que a necessidade de vomitar informação supera de longe a forma como esta é transmitida e assim tudo se passa demasiado rápido para nós podermos envolver com a realidade fantástica que Marte potencia.

O resto do filme é previsível, diálogos absurdos, não trazendo absolutamente nada de novo em que a única coisa que safa é o espectáculo proporcionado por um excelente trabalho de efeitos visuais.

 

Vivemos numa era em que está mais do que provado que os CGI são capazes de feitos extraordinários, mas que são recorrentemente desperdiçados em filmes que os aplicam de uma forma irrelevante. John Carter não se destaca porque insiste em ceder a clichés estilísticos e narrativos.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 19:59
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Segunda-feira, 06 de Fevereiro de 2012

Quando apresento este filme realizado por John Carney dizendo que custou 130.000€ e que fez sensivelmente 20.000.000 de dólares pelo Mundo inteiro, conseguindo o feito de multiplicar cem vezes o seu custo, a resposta que me irão dar provavelmente será que a língua do filme é o inglês.

Antes de mais, não será esse o problema que anula o cinema português neste caso, e o caso de A Arte de Roubar de Leonel Vieira, também ele falado em inglês que se mostrou mais um falhanço de bilheteira?

Once não tem super estrelas, provavelmente Glen Hansard e Markéta Irglová não eram estrelas como Nicolau Breyner nem Soraia Chaves, internacionalmente, tanto Hansard como Breyner representam o mesmo a nível de bilheteira, ambas caras desconhecidas até á data, mas que diferença haverá entre um e outro?

Nicolau Breyner em Portugal é uma cara conhecida, Soraia Chaves é um corpo conhecido, sinónimo de qualidade, ou pelo menos ainda leva bastante público português ao cinema pelas suas proezas no acto de simulação sexual, no entanto, internacionalmente Glenn Hansard e Irglová serviram Once de uma forma muito mais tentadora, nenhum dos dois sendo actor profissional, ambos eram músicos profissionais que no filme representaram extraordinariamente dois músicos de rua com que o público se maravilhou muito mais, pelos vistos cem vezes mais do que se maravilha com o corpo da Soraia Chaves. E não só foi um dos factores do sucesso de bilheteira como deu origem a uma banda sonora que rendeu também imenso no mercado.

Carney recorreu a dois músicos profissionais com características que garantiram o sucesso do filme, a sua genuinidade musical e na representação, e para o efeito vendeu muito mais do que ter um corpo belíssimo ou um autor cujos atributos poéticos assentes em dogmas são pelos vistos sinónimo de qualidade.

O filme também não foi feito em décors complexos, não teve as mais-valias daquilo que a maioria dos cineastas portugueses se defendem, como o carimbo de qualidade da pelicula, uma imagem soberba conseguida com enquadramentos altamente poéticos, o filme não tem nada disso.

Lendo uma entrevista do realizador apercebo-me de uma confiança que não há nos cineastas portuguesas, ele refere-se a ele mesmo como um low-budget filmmaker, ele sentia-se confortável em trabalhar com pouco orçamento e com actores não profissionais. Ao contrário da maioria dos realizadores portugueses que parece não se quererem encaixar na sua posição de realizadores de filmes low-budget queixando-se de que não há dinheiro para fazer cinema em Portugal quando os seus filmes custam três vezes mais que filmes como o Once.

Enquanto um realizador assume que é capaz de gerir um filme de baixo orçamento, em Portugal onde a prática é recorrente, a teoria mantém-se arrogante como se cada cineasta gerisse um cinema digno de orçamentos astronómicos. Isto resulta em más políticas de gestão de recursos e a desperdiçar dinheiro de uma forma impensável. Será necessário que os cineastas adoptem uma postura de baixo orçamento e que pensem em formas de realização flexíveis e inteligentes que não consumam tudo aquilo que está por trás da câmara deixando vazio aquilo que se mete á frente dela.

O filme foi filmado em digital, os décors eram casas de amigos e foi filmado praticamente com luz natural. Isso abriu imensas portas e uma delas foi que o filme se tornasse concebível. No entanto, baixo-orçamento não significa pouca experiência, e Once é prova disso, porque todos estes constrangimentos não mostraram perturbar o público que garantiu uma soma total de 20.000.000 de dólares.

Fazer das desvantagens, vantagens, apesar de o filme ter um aspecto extremamente amador, o realizador diz que acaba por ser uma vantagem porque o filme aparenta aquilo que é, um filme feito com pouco orçamento, o que de certa maneira pode ter cativado a curiosidade do público, ver algo feito com tão pouco dinheiro. No final da entrevista, o realizador explica que mesmo que tenha mais dinheiro para o seu próximo filme, irá utilizá-lo cuidadosamente.

Once vence também o Audience’s Award no Festival de Sundance, festival longe da realidade portuguesa, demasiado preocupada em satisfação artística e intelectual com festivais como Cannes, Berlim ou outros menos conhecidos cujos nomes para mim se mantêm impronunciáveis.

Apesar de Once não ter sido um filme com um planeamento virado para as audiências e apesar de não ter feito um estudo de mercado para o seu sucesso, não deixa de ser um exemplo valioso a seguir.

Principalmente por um aspecto que a cinematografia portuguesa enaltece mas tem sido sucessivamente desprezado dado a sua irrelevância é o espírito de criar um objecto único.

Cada cineasta português faz uma abordagem incorrecta ao mercado, ou se pensa que os seus filmes vão valer pelo seu lado imitador de fórmulas quer sejam de Hollywood ou de thrillers britânicos ou pelo seu lado inimitável autoral e artístico que se baseia numa matriz poética já esgotada há imenso tempo.

Quando se justifica que o valor no cinema português está intimamente ligado ao seu lado autoral, à sua identidade, ao facto de ser único no mundo, filmes como Once revelam-se verdadeiramente únicos e conquistam públicos.

A verdade é que quando o cinema português se vê confrontado pelo porquê do seu lado único e irrepetível a resposta tende para um estereotipado e ridicularizado lado poético e artístico dos seus filmes, tornando-se assim a justificação tão vaga como os resultados irrelevantes dos seus objectos. No entanto se perguntarmos o que Once trouxe de novo e único ao Mundo a resposta parece simples, num género em que parecia difícil de inovar, o Musical, que habituou públicos a extravagâncias surge um filme que mantém a qualidade básica do género, ou seja extraordinárias composições musicais, tanto que até venceu o Óscar da Academia para melhor Canção Original e revela um novo lado do musical, único neste filme, que é mostrá-lo como se este surgisse de uma forma natural sem qualquer artifício extravagante com uma genuinidade até então inalcançável.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 23:48
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Domingo, 17 de Abril de 2011

Calmamente num campo luzidio de girassóis, o céu azul e puro ilumina o amarelo e o verde das contorcidas flores na sua beleza orgânica e saudável. Fim.

 

 

 

 

Estamos num tanque sujo, viscoso, com água que salpica no chão. Entram os soldados, vamos à guerra! Adeus ao que conhecemos como o mundo, estamos dentro de um tanque e ao nosso lado temos soldados sujos que arquejam. Por uma mira telescópica vemos entranhas, vísceras, sangue, demência, vemos o medo, sentimos o medo, deixamos de respirar a guerra, esta é que nos respira. De repente, ouvimos um barulho arrepiante, metal arranha metal, os nossos ossos enregelam, as pupilas dilatam como tal efeito secundário, uma bomba explode, nós arrebentamos o mundo, não queremos, mas somos nós, estragados e temporários espectadores do mal. Ai a claustrofobia! "Libano" é tão aterrador que sentimos picadas nas pernas, sentimos bichos a tomarem o nosso corpo, insectos que nos degolam, que cobrem o nosso ser. Causadores de ruínas, mesmo ao nosso lado!

 

 

 

E depois... Quando nos pensam suficientemente perturbados, cheiramos o que nos rodeia. O visco escorre da parede, o sangue escorre dos corpos, e o olhar, o olhar! Como uma injecção, como uma força que transcendi a natureza, como algo irreal, como uma nova experiência da vida, o olho abre-se, vive, aquele olho, é o olho que nos perturba ainda mais! O olho vê, e por causa dele nós vemos! E o mais terrível, é que ao vermos olho, vemo-nos a nós próprios, tão vivos, tão alterados, tão cheios de tudo menos de nada! É triste dizê-lo, mas Libano é revigorante, um filme tão cheio de força. Libano é um filme canibal, devora tudo, devora o espectador. Na verdade o Libano é um filme para adorar, porque dançamos com ele numa bela música, essa música não tem qualquer melodia, não tem qualquer som, é a música da verdade, é a música do negro e ácido dia dentro de um tanque de guerra.

 

 

 

O aspecto deste dia é tão volúvel, que temos medo de escorregar na porcaria que vai no chão, de explodir dentro do tanque, de morrermos por tudo menos o que esperamos. O Libano é assim, é selvagem. Tão impressionante que amarra o espectador ao seu ferro, ao seu cimento, à sua

 

carne e às suas lágrimas por chorar. Quando respiramos outra vez, já não respiramos da mesma maneira. Cheirámos a podridão.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 14:00
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Domingo, 13 de Março de 2011

Em cooperação com Diogo Figueiram, autor do blog A GENTE NÃO VÊ e com o acompanhamento de Alexandra Corte-Real de Almeida foi realizada uma entrevista a Vasco Rosa.

Jovem realizador e produtor português que irá estrear agora o seu projecto mais recente, "A Chamada". Jovem cineasta que se destaca pela agilidade dos seus métodos produtivos e pela eficácia destes mesmos. De momento encontra-se a preparar "Oblivion", a sua primeira longa-metragem.

Os meus agradecimentos ao Vasco por se ter disponibilizado para esta entrevista.

Sendo uma transcrição de uma conversa, a sintaxe utilizada pode não ser a mais correcta.

 

Vasco, conhecemos o teu mais recente projecto, "A Chamada", e queríamos, para começar, desafiar-te a deixar aqui duas frases que deixem os nossos leitores com vontade de ver o filme.

Eu acho que é uma história bastante rara porque é um filme passado nos anos 90, em Portugal, e raramente, nos filmes portugueses, fazemos filmes passados noutra época que não a actual. Pelo menos nos anos 90, acho que não pegamos muito nisso; pegamos se calhar nos anos 60 ou 70, mas nunca pegámos nos anos 90. Depois, a outra coisa curiosa é a questão de serem jovens e ser um filme sobre jovens. Normalmente, num filme meu os actores têm sempre a minha idade. Ou seja, no "Últimos Dias" tínhamos todos esta idade mais nova mas fazíamos de adultos e isso não resultou bem, porque tira a credibilidade ao filme e não funciona (foi uma das grandes críticas que lhe foram feitas). Agora, no "A Chamada" os personagens são jovens e são interpretados por jovens.

Basicamente, passa-se nos anos 90 e as questões centrais são a esperança e as viagens no tempo. Aquela coisa de que todos nós gostaríamos de voltar atrás no tempo, para mudar alguma coisa da nossa vida, como salvar alguém. Neste caso, é mesmo isso: o Ricardo quer salvar a namorada, que é morta, não se sabe porquê nem por quem e entra num loop temporal, sem saber como é que isso acontece. A missão dele é impedir que a namorada morra. Como não consegue à primeira, tem as tentativas todas que quiser; até conseguir salva-la, o loop não acaba. Eu acho que é um filme emocionante, é um thriller. Não vai criar grandes sustos, as pessoas não vão saltar das cadeiras, mas vão ficar perturbadas e tensas.

Quando acabar vai ser uma espécie de alívio. As pessoas não vão estar à espera que seja aquela pessoa e é quase como o jogo do Cluedo - todos têm uma razão, uma arma e só falta saber quem é. Digamos que é também uma resolução de um assassinato.

De onde é que partiu esta ideia ?

Eu sempre quis fazer um filme de terror. Adoro filmes de terror. E raramente se fazem filmes de terror em Portugal. E eu lembro-me de ir ao Parque da Serafina, no verão, e olhei para a cabine telefónica que está lá, verde, daquelas antigas, e pensei que tinha de filmar aquilo. Ao lado da cabine há um caminho daqueles de terra batida, muito comprido, com umas árvores, e eu comecei a olhar para aquilo e para mim era tudo muito cinematográfico, pedia para ser filmado. Comecei a pensar e surgiu-me a ideia de alguém a passar e, do nada, o telefone toca. É uma coisa estranha, um telefone tocar do nada, quando uma pessoa está a passar. Ele atende e quem é que é: ele próprio. É mesmo estranho, ele ouve a própria voz. E porque é que ele está a falar com ele próprio ? Porque houve ali a tal questão temporal.

A ideia inicial ia ser com ele próprio a ter morrido, e era quase como se aparecesse o fantasma dele, que ali pairava para sempre e o avisava - "não saias para o parque de estacionamento porque vão assaltar-te, dar-te uma facada e vais morrer". Depois alterámos essa versão.

Mas não foste tu que escreveste o argumento.

Não. Eu antes fazia de tudo um pouco. Mas quero começar a especializar-me (realização e produção). Acho que todos nós somos melhores numas coisas do que noutras e estarmos a fazer aquela coisa de ter o nosso nome espalhado em todo o lado, nos créditos finais, é do género "ah faço tudo, sou muito bom, não preciso de ninguém". É assim, eu preciso de montes de pessoas. Até há pouquíssimo tempo era eu não tinha ninguém a fazer os filmes comigo; fazia quase tudo sozinho, por necessidade. Claro que não me importo de fazer de tudo um pouco; tudo é interessante. Mas, por exemplo, há muitos anos que não escrevo e achei que era muito mais interessante pedir a uma pessoa que escrevesse bem e que conseguisse fazer aquilo rapidamente, que conseguisse trabalhar muitas versões, para eu produzir e realizar aquele argumento.

Eu e o Miguel Cravo (ideia original) começámos a fazer umas notas, até foi num guardanapo, na esplanada da Serafina, esboçámos as ideias que queríamos e o Joel Gomes, que é o argumentista, desenvolveu. Fez sete versões e filmámos a versão final.

E durante a escrita do argumento, houve muito trabalho de pré-produção ?
Foi muito rápido, o "A Chamada". Demorou apenas dois meses, sendo que costumo demorar cerca de seis ou sete. Demorou dois porque eu disse ao Joel que queria filmar em Setembro, algo que teve a ver com a disponibilidade dos actores com que íamos trabalhar ao início, mas que acabaram por sair do projecto. Acabei por contactar os agentes de novos actores, do Fernando Pires e da Ana Marta Ferreira, sendo que o Fernando disse logo que sim e perguntou se queria ajuda e a Ana Marta também ficou logo muito entusiasmada. O Fernando fez um grande esforço: ia gravar a telenovela "Sedução" e ia a correr a Lisboa gravar o "A Chamada"; ele não parava.


 

 

 

 

Como é que reuniste esta equipa, como está a ser trabalhar com eles e de que forma é que vês neles uma plataforma sólida para uma colaboração futura ?
Reunir a equipa não foi fácil. São imensas pessoas e eu nunca tinha feito uma produção minha com tantas pessoas. Houve alguns problemas porque contratei uma equipa de produção que não conhecia muito bem, mas precisava mesmo deles. Desiludiram-me - lembro-me de estar na Serafina, a meio de uma filmagem, à noite, e estávamos a discutir. Eu queria ir realizar o filme e havia sempre um problema. Mas, por outro lado, enquanto eu tratava disso, toda a gente estava a ensaiar, apesar de eu não estar lá. No "Últimos Dias", sem mim ninguém estaria a fazer nada porque éramos muito poucos e não havia essa dinâmica.

Como disse, reuni-los não foi nada fácil. Até porque eram pessoas de várias áreas e a maior parte só se conheceu nas filmagens. A ideia original era reunir uma equipa que se conhecesse no "A Chamada" e depois pudesse fazer o "Oblivion", quando este ainda era para ser uma curta. Como agora o "Oblivion" já vai ser uma longa, a pagar, vou contratar os melhores.

E depois, se há coisas boas em reunir equipas jovens, também há coisas más. É que há uns que estão dispostos e outros que nunca estão dispostos.

No "A Chamada", ainda não conseguiste que a equipa e os actores fossem remunerados ?

Não.

Mas todos aceitaram trabalhar sem problemas.

As pessoas ficam muito admiradas, nomeadamente em relação aos actores. Mas se calhar os actores até têm ainda mais interesse em trabalhar sem receber do que o cameraman ou o director de fotografia. Porque, claro que ganham todos currículo, só que o actor está sempre em frente à câmara, sempre a ter visibilidade, vai aparecer, vai ser entrevistado, vai falar do filme.

Tens apostado numa divulgação do projecto de forma muito dinâmica, através de Youtube, Facebook, e afins. Tens em vista outro mecanismo de marketing ?

Talvez o Sapo Cinema. A ideia era fazerem passatempos para oferecerem convites para a antestreia do "A Chamada" em Março, realizar entrevistas com os actores, etc. Para mim o Youtube é essencial e o Facebook também tem dado imenso jeito.

E televisão ?

Para o Oblivion, só. Só faz sentido fazer isso para uma longa, porque o "A Chamada" não vai estar à venda, não vai estar nas bilheteiras. Eu até estou em contacto com uma pessoa da ZON para fazer a antestreia e eles já me perguntaram se eu tinha plano de distribuição. Eu interpretei isso como uma questão sobre estar interessado em mostrar o filme nos cinemas, ainda antes de uma longa. Se eles realmente me tivessem dado essa oportunidade, eu dizia que não. "A Chamada" ainda não tem categoria para ir para o cinema; quero ir para o cinema com o "Oblivion".

Muito do que os cineastas portugueses se queixam tem a ver com a pós-produção de som. Sentes esse problema ?

Por acaso não. Realmente os filmes portugueses têm sempre um som muito estranho, com dobragens mal feitas, por exemplo. Se for bem feito, é fácil dobrar um filme - o "A Chamada" vai ser dobrado. Dá é muito trabalho, mas eu estou a trabalhar com um pós-produtor de som inglês, o Henry Nesbitt, que tem imensa experiência e não tem tido problemas nenhuns.

Tens algum circuito de festivais em mente, para o "A Chamada" ?

Tenho. Eu queria participar no Fantasporto, mas estou um bocado desiludido com eles. Eu fui num ano na abertura do festival passaram o tempo a dizer mal de Lisboa. No outro dia mandei-lhes um mail a pedir para me poder inscrever ainda, sendo que as inscrições tinham terminado em Dezembro, porque ainda não tinha o filme terminado. Nem me responderam. Bom, li no site que tiveram muitas inscrições e se calhar foi por isso; passou-lhes ou não tiveram tempo. Mas normalmente nunca há problema nos outros festivais, mando um work in progress e depois envio o filme terminado.

Depois há o Sitges, em Barcelona, que é quase os Óscares do cinema fantástico, há o MoteLx, e não tenho muito mais. Não estou estou inclinado ainda para grandes festivais, vou é apostar a sério em inscrever o Oblivion, em festivais como o Sundance ou Tribeca.

Há uma coisa que os cineastas portugueses entendem como paradigma: um filme português não lucra nem nunca lucrará. Achas que é possível ?

Depende muito do que queres dizer com "lucrar". Uma longa portuguesa, por mais que seja distribuída nas salas portuguesas, dificilmente se paga. Por exemplo, o "Oblivion", se for para os cinemas vai-se pagar, porque estamos a pensar gastar, no máximo, 20.000€. Para mim, é muito dinheiro, mas para uma longa é pouquíssimo. Mas eu sei que o vou conseguir fazer. Por exemplo, em Portugal, uma longa custa em média 500.000€.

Mas esses filmes têm o apoio do ICA.

Pois, o ICA ... Uma vez uma senhora que trabalhava no ICA perguntou-me, muito admirada, como é que eu tinha conseguido fazer o "Últimos Dias" com tão poucos meios. Mas por exemplo, porque razão é que eu, jovem realizador, se quiser candidatar-me ao apoio do ICA, não posso ? Não posso, não tenho uma produtora registada. A Byron ainda não está registada.

E há o problema dos critérios, dos objectivos.

Já me contaram histórias. E é por isso que nunca vou perder tempo a imprimir um projecto para o ICA.
Até porque é importante apostar em produzir independentemente do Estado.

Sim, os privados. Eu acho que a chave para o cinema português são os privados. Claro que é difícil, mas é possível. Por exemplo a PT, apesar de ser apenas semi-privada, pôs lá a cabine. A maior parte das pessoas deve pensar que o director é meu tio ou algo do género. Mas não é. Não tinha lá nenhum contacto, sequer.
É preciso ter tenacidade e saber procurar.

Exactamente.
Voltando ao lucro do cinema português.

O máximo que um filme português tem é à volta de 300.000 espectadores. Mas a não ser que um filme custe 20.000€ como o "Oblivion", o filme não se paga. Por isso, a minha ideia é fazer filmes que se possam exportar. O mercado brasileiro está completamente desperdiçado, que têm de ver os nossos filmes - eles falam a mesma língua que nós. Espanha, que estão próximos. África, eventualmente e os Estados Unidos.

Os maiores sucessos nacionais foram produzidos pelo Tino Navarro, com o Joaquim Leitão a realizar.

Podemos passar, então, ao Oblivion. Como é passar da produção de uma curta para uma longa ?

O "Oblivion" era para ser uma curta. Mas muita gente insistiu que fizesse uma longa. Eu queria esperar mais uns anos, mas as pessoas acreditavam no potencial. Mas tinha de ser desta. Eu acho que o cinema só atinge a sua verdadeira essência numa longa. Numa curta não tens tempo para, como espectador, conseguires viver aquilo a sério. E eu decidi fazer uma longa também porque as filmagens do "A Chamada" foram muito duras e eu não conseguia trabalhar naquelas condições, sem ter uma equipa a receber. Tinha de começar a haver dinheiro envolvido; é também uma questão de sobrevivência. Uma pessoa tem de viver e isto é uma profissão.

Mas existe muito a mentalidade de que o cinema deve ser pobre.

Depois são pobres, têm de ir pedir dinheiro aos outros e fazem filmes que ninguém vê.

Levantas o véu a alguma das surpresas que nos esperam, em "Oblivion" ?

O protagonista é o Pedro Martin, é um dos melhores modelos do país. Gravou recentemente para a série "Vôo Directo" (RTP) e ainda não fez mais nada de grande destaque ao nível de interpretação. Mas quando eu vejo alguém que encaixa mesmo no perfil que eu quero, nem quero saber se é actor ou não. Eu filmei com ele uma curta ("O Dia D"), há uns tempos, e adorei trabalhar com ele. Precisa de muitos ensaios, é verdade, mas chega lá. Nessa tal curta, o melhor momento dele foi quando ele brindou - ele está habituado a fazer muita publicidade e sabe fazer aquele sorriso "comprem". Portanto, ele sabe fingir uma coisa que não é. E esse é o James, um prostituto de luxo infeliz, que tem de estar sempre com um ar de glamour.

Vais também trabalhar com um estilista conceituado, o João Rolo. Como chegaste até ele?

Foi muito complicado, eu liguei para o ateliê dele mas ninguém atendeu porque já estava fechado, depois adicionei-o no facebook, mandei-lhe um mail, ele foi super simpático e disse logo que sim. Aconselharam-me a falar com João Rolo porque ele era a pessoa indicada, porque é ele quem faz vestidos de alta-costura, para prémios é ele que faz, e ele faz um tipo de vestido com muito glamour que é aquilo que o filme pede. E é muito bom ele ter aceitado visto o vestido ser um aspecto da rapariga ser um aspecto fundamental do filme, para haver o contraste entre o vestido e a face dela, como ela se quer matar vai estar sempre com a maquilhagem toda borrada, cabelo desgrenhado e um vestido comprido e sofisticado. É aquela dicotomia entre o sofrimento interior mas por fora é uma mulher bela, rica, invejada por qualquer pessoa.

No Oblivion também vais apostar forte no marketing?

Sim, desses 20.000€ estamos a pensar em gastar 5.000 em publicidade, fazer montes de cartazes, standees nos cinemas, anúncios de televisão, outdoors, mupis, fazer uma secção só do “Oblivion” no site da Byron, continuar a apostar no facebook, acho que é essencial. O trailer tem de ser super apelativo, colocá-lo em várias plataformas. Ainda tenho de pensar se quero tentar primeiro a glória e o prestígio dos festivais ou se quero sobreviver e ver o meu filme no cinema.

Preferes digital ou película?

Eu só posso preferir digital, eu nem posso pensar em película se nunca vou poder tê-la. Acho que com o digital consegue-se perfeitamente. Se tu souberes o que fazes resulta, por exemplo, no “Fá-las curtas” era digital e tinha uma imagem excelente, tem cor, tem vida, estou a adorar, só espero que agora não escureçam, porque as têm passado até agora têm sido muito escuras. Mas acho estranho, porque está a ser usada uma câmara HD com muita qualidade e quando nos mostram os brutos nos monitores tem uma qualidade espectacular. “A Chamada”, por exemplo, foi filmada com uma máquina fotográfica, a Canon 550D.

Quais as obras que intensificaram a tua relação com a sétima arte?

Eu quando vejo um filme, eu vivo muito um filme como espectador normal. Odeio dissecar filmes, tenho muita dificuldade em dissecar um filme, há muitos filmes que vi e adoro, mas não sei necessariamente quem realizou e o nome do filme, por vezes nem sei os nomes dos filmes. No “Fá-las curtas” disse “Titanic” e assim, e vão pensar, “este gajo só gosta de blockbusters”, mas por exemplo o “Belle De Jour” de Buñuel é um filme que está lá. Depois há aqueles filmes que eu refiro sempre, “Titanic”, o “Malèna”, “Cinema Paraíso”. “E Tudo o Vento Levou” foi a melhor sessão de cinema da minha vida, fui vê-lo à Cinemateca quando estava a chover, é formidável ir ao cinema quando está a chover, o filme é de 1939 e tem tecnologia e dinâmica que nós nem em 2030 vamos alcançar, uma actriz com quatro anos que representa melhor que ninguém, os efeitos da cidade a arder com os meios que tinham, eles tinham muito dinheiro, mas é preciso mais que isso, se qualquer dia fizer um filme como este, posso morrer logo a seguir.

Sentes que tens alguma influencia em particular de algum realizador?

É aquela coisa, eu às vezes nem te sei dizer quem é. Eu se calhar já vi aquele filme, mas não sei de quem é. Eu acho que não há ninguém em particular, mas por
exemplo aquele filme francês que é o “Alta Tensão” que é de terror, não sei quem realizou, mas foi um filme que influenciou “A Chamada”. Não tenho nomes específicos, mas sei que não nasceu comigo, tu vais buscar as influências a tudo o que vês, inconscientemente. Para “A Chamada”, “Frequência” também foi uma referência. Mas tem de haver referências, no teatro, quando lês, etc…
Mas também vou buscar a episódios estranhos que me acontecem, uma vez estava no metro, estava sentado e um gajo começa a cantar e virou-se para mim e perguntou-me se cantava bem e depois começou a contar a história da vida dele, que sempre quis ser cantor, e quando estamos tristes temos que cantar, e que não queria dinheiro, queria apenas cantar para animar as pessoas no metro, queria fazer as pessoas felizes. E aí está um grande personagem!
Por vezes também surgem nos sonhos. Eu sonho todas as noites, e todas as noites me lembro do que sonho. O que é bom e é mau, por vezes é um bocado complicado, confunde-se um bocado a realidade com a vida do sonho, se aconteceu ou não aconteceu, já cheguei a discutir com a minha irmã num sonho e de manhã acordo mal disposto com ela. Às vezes preferia-me não lembrar, às vezes aponto, mas outras vezes é demais.

Qual é o teu filme português favorito?

Tenho dois, “Costa dos Murmúrios” de Margarida Cardoso e “Zona J” de Leonel Vieira, que é um dos realizadores que eu prefiro em Portugal. “Costa dos Murmúrios” é com a Beatriz Batarda que é a minha actriz portuguesa favorita, ela é genial, “A Costa dos Murmúrios” é passada numa colónia em Moçambique na década de 70 que é uma época que adoro. Também adorei o “Mal Nascida” do Canijo, principalmente pela transformação da Anabela Moreira, gostei muito da imagem, do som, e a representação estava muito credível.

Onde te vês daqui a dez anos?

Vou ser sincero, daqui a dez anos, espero estar em Los Angeles e a sobreviver com o dinheiro dos meus filmes, não ser multimilionário, mas já estar a ganhar dinheiro a sério, espero estar lá, mas ter deixado cá uma marca. Espero ir para lá e espero que seja com o “Oblivion”, que é mesmo a minha aposta, para que me vejam como realizador mais do que outra coisa qualquer, porque “A Chamada” ainda não me vai mostrar como realizador, mas espero que no “Oblivion” olhem para mim e digam: “Ok, o Vasco Rosa e é um realizador”.

 


 


 
publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 16:40
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Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

Um autor não tem direitos. Eu não tenho nenhum, apenas deveres” Jean Luc Godard

 

Pegando numa citação de Jean-Luc Godard, defensor máximo de uma identidade de autor, cimentada por uma maioria de “autores” de um país e

de uma certa arte, apesar de não acreditar na ausência de direitos penso antes sobre quais deverão ser uns e outros.

 

Se um autor tem o direito a uma identidade, tem o dever de não se acomodar a ela.

 

Se um autor tem o direito a exprimir-se, tem o dever de compreender a arte pela qual se exprime.

 

Se um autor tem o direito de ser livre, tem o dever de trabalhar essa liberdade.

 

Se um autor tem o direito à liberdade, tem o dever de excluir egoísmos e autismos.

 

Se um autor tem o direito a exprimir-se, tem o dever de se actualizar sobre os métodos e competências técnicas que surgem intrínsecos à sua forma de expressão.

 

Se um autor tem o direito a um rosto, tem o dever de não o esconder por trás de uma máscara.

 

Se um autor tem o direito à poesia, tem o dever de fazer poesia, não forçar ambiguidades irrelevantes ou tomar posturas demagogas.

 

Se um autor tem o direito de falar por um povo, tem o dever de falar por esse povo e não falar somente para esse povo.

 

Se um autor tem o direito de ser remunerado, tem o dever de agir com profissionalismo.

 

Se um autor tem o direito à espontaneidade, tem o dever de ruminar essa espontaneidade.

 

Se um autor tem o direito de confiar em si, tem o dever de confiar no julgamento de outros.

 

Se um autor tem o direito de recusar abordagens aos seus projectos, tem o dever de justificar essas recusas evitando suportar-se em

argumentos vagos, análogos do vazio.

 

Se um autor tem o direito de não fazer filmes para crianças, tem o dever de não criar diálogos e personagens como crianças.

 

Se um autor tem o direito a errar, tem o dever de compreender e tentar contornar o erro.

 

Se um autor tem o direito a não contar uma história, tem o dever de não chamar “burros” ou “ignorantes” àqueles que não percebem o que não

existe.

 

Se um autor tem o direito a recorrer a práticas menos interessantes, tem o dever de o fazer de um modo universal de modo a que a universalidade cubra o método.

 

Se um autor tem o direito a vitimizar-se, tem o dever de não fazer vitima uma audiência.

 

Se um autor tem o direito a realizar obras junto de um público que não o compreende, tem o dever de tentar compreender o porquê de não haver público, não só junto de si, mas também no resto do Mundo.

 

Se um autor tem o direito à liberdade, tem o dever de tornar interessante a sua obra, principalmente quando está ciente de que esta desinteressa.

 

Se um autor tem o direito a experimentar, tem o dever de experimentar inovando e não de “experimentar” copiando.

 

Se um autor tem o direito a ser diferente, tem o dever de se destacar pelo interesse e originalidade dessa diferença e não ser diferente apenas por ser.

 

Se um autor tem o direito a fundos de um Estado, tem o dever de contribuir para o seu desenvolvimento.

 

Se um autor tem o direito a ser artista, tem o dever de fazer com que a sua obra seja publicada, difundida e confirmada.

 

Um autor tem o direito de se assumir como autor.

 

Um autor tem o dever de não se conformar com essa posição de autor.

 

Um autor tem o dever de credibilizar essa posição não só junto de si mas pelo resto desta esfera manchada de água e terra.

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 22:34
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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

P.T. Anderson tem-se vindo a afirmar como um realizador de excelência com os seus trabalhos anteriores. No entanto "Haverá Sangue" é prova dessa excelência, é o grito de existência de um génio, é a marca de uma obra-prima. "Haverá Sangue" é o melhor da década e é, indubitavelmente, um dos melhores filmes da história do Cinema.

 

 

 

 

 

O arquétipo de como aproveitar os meios, de como conjugar as forças de uma equipa coordenada pelo novo génio cinematográfico, um novo Kubrick, seu nome P.T. Anderson. Versátil no género, versátil com a câmara, "Haverá Sangue" é um filme calmamente arrepiante, de tal modo arrepiante que tudo treme ao vê-lo e a ouvi-lo, tudo treme de frio, de perturbação, tudo fica céptico, tudo se deixa cair no nosso ser aos pés de uma jornada incomparável de um homem, Daniel Plainview. Tão calmo, longos planos, invadidos de um tratamento condescendente, que dá tempo a tudo o que filma, que dá tempo à beleza da imagem, à frieza dos acordes musicais e à profundidade de voz e expressão dos personagens.

 

 

 

 

 

 E é com uma calma confusa, que um ardente grito de violino incendeia os sentidos, ao mesmo tempo que do negro passamos para a imagem, para o completo, para o sublime, uma enorme encosta, despida, rija, seca, imponente, estrondosa, tal como Daniel. Uma picareta bate em pedra dura, um homem só, numa mina, num buraco. Um homem que parte uma perna, que rasteja pelo meio do nada, por cima de terrenos agrestes, aceitando tal penitência silenciosamente, em favor do sucesso.

 

 

 

 

 

Não há qualquer palavra no inicio de "Haverá Sangue", e quando temos conhecimento da fala neste, a primeira vez em que se coordena voz e gesticular ouvimos tais palavras: "If I say I´m an oil man you will agree". E todos concordam, o que há para discordar? Deste homem negro como o petróleo que extrai das entranhas da terra. Tudo fica manchado de negro, vermelho e suor. É esta sujidade, tão própria da vida, que faz com que esta perturbadora obra sobre a ganância, a avareza, a solidão, seja encarada cheia de vida, vida morta, que tem aquilo ainda não morto, mas certamente perto, é da natureza que cresce, que liberta a calma e a condescendência de um processo lento.

 

 

 

 

 

 

Daniel Plainview é assim a bandeira de um novo cinema, de uma nova dialéctica, sem receio em se esconder em narrativas clássicas, numa prosa sem narrador, onde Anderson abusa vorazmente da narrativa cinematográfica, apenas por imagens, trabalha com aquilo que vemos, encena tudo que está diante de si, cria essa realidade crua, esse medo pela proximidade, pelo fascínio em estar de fora, estar tão afastado que transpomos a barreira que nos separa do que vemos.

 

 

 

 

 

Esta narrativa cinematográfica é tão forte que ficamos intrínsecos à história, é este novo cinema, de contar uma história por imagens e sons, este novo cinema de P.T. Anderson em "Haverá Sangue", que finalmente ultrapassa o limite entre a poesia e a prosa, entre o indecifrável e o conciso, porque o que nos é revelado é, se não dos mais belos poemas, sem propriamente se tratar de um paradigma do egoísmo ou do individualismo, cuidado, não falo sobre a história, mas sobre o processo.

 

 

 

 

 

 É o aproveitar dos meios, é uma produção ágil, após um processo de investigação é recriar o que existiu, pensar onde colocar a câmara, e fascinar, é fazer com que violino arranhe piano, com que a imagem fira a alma, com que o ser se sinta invadido pelo sublime, pelo belo. Uma obra de arte não é efémera, caminha sem se desarticular nunca com o tempo, uma obra de arte fica ligada a uma pessoa até ao fim da sua vida, assume-se como parte da vida de outrem sem ser a do seu criador.

 

 

 

 

 

 "Haverá Sangue" é uma obra de arte, duradoura, eterna, é cinema, é a prova do belo na sétima arte, a revelação do estranho, é tornar grandiosa a realidade, é conseguir arrancar naturalmente todo o Mundo, é a transformação do homem no transcendente, sem no entanto confundir. Isto é arte, esta poesia que se percebe e não ofusca, que não tem contratos com a ambiguidade. Se há ambiguidade em "Haverá Sangue" é porque surge naturalmente, não forçada porque é moda ou porque se pensa que é a fórmula para um sucesso garantido. "Haverá Sangue" é aquilo que é, o cinema que conquista um publico.

 

 

 

 

 

 

"Haverá Sangue" é o cinema aclamado mundialmente, e com toda a razão, é o cinema que serve de modelo a uma geração, "Haverá Sangue" é o cinema que deve inspirar novos cineastas, deve ser o marco do devir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 22:15
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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

João Pedro Rodrigues é um chato. Se há algo que certamente não volto a repetir é ver um filme deste “autor”.  

Porquê filmar sucessões de acontecimentos desconexas, ilógicas e desinteressantes? Porquê esta necessidade de forçar o artístico, o metafísico ou o poético? É assim que se faz cinema quando se conforma que não há público?

Pois bem, este “O Fantasma”, é dos filmes mais enfadonhos que vi na vida, além do mais “O Fantasma” é feio visualmente.

Depois não tem história, aquilo não é uma história. Passados cinco minutos de filme, a primeira coisa que comecei a desejar foi que o personagem morresse e que o filme terminasse imediatamente. Não encontro nenhuma tentativa de revelar uma auto-descoberta ou o que quer que seja, não compreendo qual a mensagem que o realizador pretende passar com este filme. Mas há alguma mensagem? Sim, eu já percebi que o protagonista é gay, chegam-me cinco segundos do segundo plano. É como se tivesse alguém a soprar-me uma vuvuzela aos ouvidos vinte vezes só para me mostrar que sabe soprar a vuvuzela, eu percebi à primeira. Depois que razão é essa de revelar as suas tendências caninas? Porque raio lambe ele a rapariga? Porque raio eu tenho que o ver a vaguear no meio do lixo por tempo excessivo?

João Pedro Rodrigues terá dito “…não sei muito bem se o mistério sempre é revelado ou “passa” para quem vê o filme”. Bem, neste caso não passou.

 

 

Sim, é verdade que o cinema é uma coisa onde a narrativa tem de ser o mais ambígua e confusa possível, é verdade que o cinema deve ser algo que não renda, é verdade que o cinema deve ser visto pelo menor número de pessoas possíveis, é verdade que o cinema deve tentar ser o mais verdadeiro possível, ter apenas os artifícios indispensáveis, porque se não, pode correr o risco de se tornar interessante, de divertir, de emocionar, de transmitir algo ao espectador, e não é isso para que o cinema serve!

É muito melhor ver olhares vagos que não dizem nada, pessoas que no meio do nada começam a trocar carícias, rapazes a terem sexo com motas, a lamberem paredes de balneário ou caras de raparigas, a brincarem com cães que a meio do filme se evaporam, porque isto tudo é mais verdadeiro! Porque é isto que faz o bom cinema, é introduzir elementos que depois não irão ter qualquer desenvolvimento na “trama”, mas atenção, também não é preciso haver trama.

Não usem banda musical, isso não! Por favor, há que respeitar o silêncio, este tem que estar tão presente de modo a tornar-se vulgar, porque se tornar o silêncio vulgar este não vai entediar minimamente mas sim transmitir imensas mensagens metafísicas, é poético, sim!

Só não percebo porque é que Kubrick tinha música nos seus filmes. Realmente não tem sentido.

E histórias sem desenlace são mais interessantes, porque assim o espectador é obrigado a imaginar, ou então a pensar que para a próxima é melhor ser ele a escrever um filme, ou então não é preciso, olha para uma parede branca durante meia hora e imagina o resto.

Tenho que concluir que ver “O Fantasma “ de João Pedro Rodrigues foi um exercício de auto-controlo, um esforço para não me enervar, e um apelo à calma, visto a partir dos trinta e cinco minutos começar a suplicar para que o filme acabasse. 

“O Fantasma” está cheio de vazio, um vazio profundo que tenta ser intermediário de um abstracto, de um estado de espírito, mas que não transmite qualquer emoção, não surpreende, é cansativo, repetitivo, pouco original e chateia. Porque o vazio não diz nada, e o que vai fazer uma pessoa ao cinema para ver algo que não lhe diz nada e não percebe? Eu agora pergunto porque será que a maioria dos estudantes detesta matemática? Certamente não é por serem uns entendidos.

Lamento ter que escrever isto, porque acredito que quem trabalhou neste filme deu o seu melhor, mas não é assim que se vai lá.

 

Assim termino citando Bad Behavior num dos seus posts mais recentes:

 “Não que o mercado seja estúpido ou ignorante: apenas acontece que ele encontra produtos melhores e mais baratos noutros países"

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 23:10
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Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

O homem sofre para não mais sofrer. Está vento, muito vento, está tudo seco! O clima é agreste, a terra é agreste e o céu está estranho, tudo aparece contorcido de uma dor infinita, de um problema incessante.

 

 

 

Numa pungente paisagem o povo sofre um choque, um choque que percorre a terra de grão a grão, vai fazer tremer o vizinho, vai abalar a vida. Fugimos àquilo que é nosso por que fomos obrigados. Somos proibidos de respirar o nosso ar. Nasce a ira, nasce a fúria, nasce a inveja, e tudo isto são filhos da necessidade, são os malignos filhos da fome!

 

 

 Os rostos sujos proliferam, e o vento sopra, deixa tudo seco, os rostos, os corpos! O povo está tão ressequido, tão cheio de pobreza. Cria-se o vazio e ele mexe-se num vácuo, vai tocar na parede do interminável, tenta quebrar essa barreira, tenta sobreviver. Já não quer respirar melhor, só quer respirar. O povo sujo e forte só quer soprar mais uma vez e saber que aquele que ama sopra também ele mais uma vez. A paisagem arrepia-se porque olha para tão infelizes transeuntes, veraneantes do infortúnio e da maldição.

 

 

 

Mas não acabam, não! Seguem e são perseguidos, aquele odor da pobreza não os quer largar, o azar agarra-se aos sapatos estragados e sujos, e estes cidadãos do mundo são acompanhados pelos seus fantasmas colados à sua sombra. Cada lufada de ar fresco traz mil e um novos desafios, o homem tem que pagar para existir, tem que arranhar carne e osso para o coração bater. Esta acutilante navalhada que alguém chamou vida é intrínseca aos humanos d´ "As Vinhas da Ira".

 

 

 

No entanto, há quem não se esqueça que somos um todo, que o nada faz parte do tudo mas o tudo não faz parte do nada. Só há uma alma, e essa alma é todos, é um hino à lembrança daqueles que não vão deixar de existir, aqueles chatos e irritantes que querem sobreviver! Sim! Esses, o povo! Ainda existem, existiram e existirão. São eles que amam a terra, que a apertam e se apaixonam por ela com tal veemência que não a esquecemos, a terra. É dela que nasce o alimento e é nela que enterramos os mortos, já o tinha dito Céline. Talvez em "As Vinhas da Ira" seja tudo muito cinzento, seja tudo muito genérico, mas talvez seja tudo muito verdade, e por isso, não o esquecemos.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 17:25
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Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

Vivemos numa realidade alternativa representada por uma caricatura de um Nixon narigudo. Estamos nos anos 80 e os super-heróis, complexos na sua humanidade, são afastados por uma sociedade mal agradecida. Super-heróis frágeis que revelam insegurança, escondidos em máscaras, abandonados pela população, nostálgicos, procuram o ouro que luziu nos seus tempos áureos. Não passam de carne flácida escondida num disfarce citadino e o mais eficaz. O mundo deixa de precisar de super-heróis, está tão absorvido pela sua ignorância e maldade que esquece que mais tarde ou mais cedo vai acabar por explodir. Seres incríveis que tentaram um mundo mais respirável. Ostracizados pela sociedade, ultrajados pela sua existência, e assim surgem Watchmen, seres humanos com capacidades sobre-humanas, tornados mitos esquecidos. A sociedade esqueceu-os, mas eles não esqueceram a sociedade. Num último fôlego, este bando de super-heróis irá regressar à prática que a ele é subjacente.

 

 

Duas vidas valem mais que uma? Terá um indivíduo, o mais inteligente de todo o mundo, a capacidade de decidir pelo resto da humanidade?

 

 

 

Watchmen usa uma comunicação moderna, trata-se de um método amplificador de sensações. Utilizam-se artifícios que simplesmente caminham para uma verosimilhança ampliada intrínseca a um sucesso em transmitir um plano. Absolutamente necessário esta ostentação de recursos digitais, que emolduram Watchmen em arte. O espectador dedica-se à aprazível descoberta visual, à alteração de velocidades do movimento. As maravilhas tecnológicas são úteis quando utilizadas de modo correcto e perspicaz, incrementam o fascínio do espectador por aquilo que lhe passa perante os olhos.

 

 

 

Zack Snyder de certo modo exagera em 300 mas acerta em Watchmen. Consegue uma película extensamente visual que funciona como uma elegia à condição humana. Sabemos pois que ninguém nos guarda, teremos nós próprios de salvaguardar a nossa existência, caso a não esquecer.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 11:39
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Sábado, 18 de Dezembro de 2010

Desde que o ser humano aprendeu a articular tons sonoros criou uma das mais perigosas armas. A fala, aquele vocábulo que persegue o anterior numa organizada e fatal comemoração da inteligência humana. Neste ávido terreno precursor de intrigas surge o mais puro dos cinismos. A infracção dos códigos íntimos, a intromissão no momento entre dois interlocutores faz o ser humano quebrar aquilo que até então se chamaria privacidade.

 

 

Para quebrar a privacidade encontra-se um solitário homem, um eremita que abandonou o seu árido deserto e se movimenta para uma tempestuosa cidade, rodeado de palavras e intrigas. Procurando fazer o que melhor sabe, procurando seguir escrupulosamente a sóbria honestidade de um trabalhador competente, vê-se confrontado com um desconcertante sentimento de culpa. Envergando uma gabardine que esconde pele e entranhas que assentam desconfortavelmente a Harry Caul. O eficaz vigilante, o homem que ouve o que os outros irão ouvir, o ser que interfere na vocalidade dos restantes. Ele é o homem que escuta.

 

 

Numa dança desconcertante, num movimento cinematográfico intenso, Coppola encarrega-se de fornecer uma intriga sufocante e digna dos mais fortes elogios. Usando o incansável fundo de ventanias e terríveis tempestades, tudo condições climatéricas de uma conversa. A paranóia surge tão bem representada que a aspiramos pelo nariz, os nossos ouvidos dançam abraçados à nossa mente, ao som de um dedilhar fenomenal numas ágeis teclas de piano. O som, esse que sempre andou de mãos dadas com a intriga, que enaltece o silêncio quando desaparece, e que esfaqueia o espectador quando se torna agudo como a imagem.

 

 

 

Desde o inicio desta maravilhosa película quando vemos um homem casual sentado num banco de jardim, sentimo-nos impelidos a persegui-lo. Saberemos nós que ele também nos persegue, persegue-nos com a sua história que nos supera. Cada vez mais intoxicados por uma teia de acontecimentos que não mais cessam. Uma conjuntura tremenda que irá despoletar um final cada vez mais ardente, cada vez mais inebriante. Cada passo que damos, aproxima-nos cada vez mais da ofuscante fogueira, onde tórridas labaredas de som e imagem se aglutinam num furacão inexaurível.

 

 

 

Surpresa atrás de surpresa, fantástica realização, planos que nos aproximam e afastam do personagem, tal como ele se aproxima e afasta de si próprio, quase como sentir o seu sangue, frio ou quente, tal como sentimos o nosso. Aquecemos e arrefecemos de tal modo que este volátil contraste se transforma num excepcional exercício de paranóia, obsessão e culpa vomitada por toda o lado. Culpa do inocente levado a executar o meio, o meio que ele é excepcional a executar.

 

 

 

Lubitsch terá dito: "Deixe a audiência somar dois mais dois. Adorá-lo-ão para sempre." E enquanto acompanhamos este singular protagonista a andar em bicos dos pés sobre a sensação de culpa, acabaremos por deliciosamente somar dois mais dois, saborear com satisfação a inteligência a que nos propomos. E ao fim de termos temido e esperado ansiosamente, sentimo-nos tocados por um calmo toque de génio. Coppola neste filme é esse génio.

publicado por Pedro Emanuel Cabeleira às 17:58
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